DETESTEI O LIVRO “A CORAGEM DE SER IMPERFEITO”

A vulnerabilidade é, antes de mais nada, a coragem de enfrentar a incerteza, a exposição e os riscos emocionais, sabendo que somos o bastante.

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Leia ouvindo: Crystal Fighters – Lay Low 

Quando comecei a ler o livro “A coragem de ser imperfeito” da Brené Brown, publiquei no meu perfil pessoal no instagram. Eu já tinha gostado tanto das primeiras linhas que valia a pena compartilhar.

Para minha não supresa, 95% dos comentários na postagem foram positivos. Senti um certo alívio em saber que mais pessoas quiseram ler sobre vergonha, vulnerabilidade e imperfeição. O que me chamou atenção foram relatos de pessoas que tinham detestado (!!!) o livro.

Oi? Como assim, detestar? 

Respeito a diferença em opiniões, valores e gostos, até porque é isso que faz o mundo ser tão diverso, mas o estudo feito por Brené durante anos, e, apresentado de maneira didática no livro era extremamente necessário para repensar o status quo.

Me apeguei ao incomodo e fui investigar – com cuidado – esse estado detestável. Em cada um dos relatos eu via tópicos do livro e a dualidade humana. Uma sociedade hiper conectada como a nossa já apresenta confusão sobre o real e o virtual. Nunca estivemos tão ansiosos e expostos a nossas vulnerabilidades.

A exposição nas redes trouxe um reality show, cheio de filtros e personagens, que em nada são reality. A vida alheia parece ser uma boa fuga, já que a nossa não é tão interessante assim. A vida quase que 100% conectada, coloca nosso dia a dia em estado de alerta. Nada do que temos parece ser suficientemente bom.

A exposição aparece como piscina: só vai até a borda, mergulhar mais fundo é mostrar demais. E ninguém tá afim de profundidade – principalmente quando se trata de si. É muito mais fácil cobrar isso do outro.

Os relatos “detestáveis” apresentam um incomodo maior em relacionamentos amorosos. Como assim eu vou ser vulnerável a ponto de dizer para o cara que eu estou saindo que gosto dele? Como assim vou falar para o meu marido que não tenho grana para fazer aquela viagem? Como assim eu vou ter que tomar essa iniciativa aqui? Entre outras INÚMERAS perguntas que perseguem o nosso dia a dia em questões amorosas.

Longe de trazer uma fórmula, mas antes mesmo de ler “A coragem de ser imperfeito” me questionei sobre o status quo que estava inserida. Foram doloridos anos para chegar até aqui. Uma imersão absurda em autoconhecimento e vulnerabilidade. Me propus sair da borda e mergulhar fundo. Não era sobre me apresentar frágil para o mundo, mas o quanto eu era capaz de ser franca comigo mesma. Foi um processo intenso, libertador e desafiador. Abri mão de pessoas, de situações e de uma poltrona chamada zona de conforto.

O perfeito, hoje em dia, me assusta. Tenho pânico do que é milimetricamente pensado para ter uma única função. E pânico maior de quem não se conhece a ponto de incluir o outro na própria confusão, como bússola. Gostamos de discursar sobre vulnerabilidade e verdade nos outros, mas quando esse assunto é sobre nós, fugimos. Despejamos no outro uma responsabilidade que é só nossa.

Não é sobre o outro, é sobre você. A vulnerabilidade é baseada em reciprocidade, assim sendo, requer confiança e limites. Como bem disse Brené: “Não é superexposição, não é catarse, não é se desnudar indiscriminadamente. Vulnerabilidade tem a ver com compartilhar nossos sentimentos e nossas experiências com pessoas que conquistaram o direito de conhecê-los. Estar vulnerável e aberto passa pela reciprocidade e é parte integrante do processo de construção da confiança”.

Trazendo para relações amorosas, já que esse foi o incomodo maior, será mesmo que vale – antes de demostrar – nutri sentimentos por alguém que você não tem confiança suficiente para se relacionar? Será que não vale rever o quão franca está sendo a relação financeira com o seu marido? Será que não vale olhar para dentro e perceber que onde não tem vulnerabilidade e troca, a gente não pode demorar?

A vulnerabilidade é, antes de mais nada, a coragem de enfrentar a incerteza, a exposição e os riscos emocionais, sabendo que somos o bastante.

Reflita.

Juliana Manzato
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