Diga que eu não fico!

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Leia ouvindo: João de Barro – Leandro Léo

Foi na ausência do correr dos dias que o nosso amor foi perdendo a força. E era tão grande o que eu sentia quando te via abrir a porta, dizendo apressado que estava com saudade, que eu era o seu lar. Mas o silêncio foi chegando de mansinho e os muitos ‘eu te amo’ foram virando pequenas porções de ‘eu também’, sussuradas baixinho pra que o mundo mal pudesse ouvir. Tinha dia que eu pensava ser coisa da minha cabeça. Teve noite que eu achei a cama grande demais, como se um vão se estendesse entre eu e você, impedindo que até mesmo as mãos pudessem se tocar – que dirá o coração.

Levantei muito cedo, pois não queria te acordar. Perto do momento do despertador tocar, seu sono perde a profundidade e eu sei que meus soluços te fariam abrir os olhos. Quem dera eles pudessem te fazer despertar, te fazer notar que dia após dia eu ia partindo devagar, de modo quase silencioso, quase pedindo socorro. Amor é coisa séria! Daqui a algumas horas, meu cheiro no travesseiro será a sua única parcela de mim. O adeus tem um requinte de crueldade que coloca à prova até mesmo o mais frio dos seres humanos. A gente vai embora e uma parte nossa acaba morrendo no processo. Qual será a fórmula secreta do amor eterno?

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[ Imagem: reprodução/Pinterest ]

Eu fiz duas malas pequenas, uma cheia de roupas que não me servem mais e a outra com as recordações dos dias felizes. Eu queria dizer tantas coisas! Com a porta aberta, olhei com tristeza cada canto da nossa felicidade. Era como se tivéssemos tatuado naquelas paredes um fragmento vivo de nossa paixão. O caminhar até o total desconhecimento não aconteceu do dia pra noite. É bem lentamente que se mata um amor. O nosso, morreu de desgosto! Daquela paixão das paredes, só sobrou a lembrança. Uma vida passada, um amor passado, fim!

Antes de caminhar rumo ao breu que me esperava do lado de fora, peguei caneta e papel na última tentativa de lhe dizer um pouco. As mãos trêmulas fizeram até a minha caligrafia parecer diferente. Três pedaços de papel amassados depois, o recado finalmente estava dado. Caminhei com cuidado pelo quarto, aproximei o quanto pude o rosto do seu e quase não te reconheci. Se faltava qualquer dose de certeza, aquela era a derradeira.

Na sua cabeceira, deixei a aliança e um bilhete num papel molhado de lágrima e sofrimento. Partir jamais teria sido fácil, mas naquele dia, a passos largos, eu decidi caminhar em direção à minha felicidade. Viriam novos sonhos e eu amaria novamente. Hora ou outra, eu passaria a acreditar de verdade nisso. A vida tem muito isso de nos ensinar a ser inteiros, seja do jeito de for. Ao despertar, seus olhos não me verão ao seu lado, como há muito tempo faziam. Eu não estarei lá pra te ouvir reclamar sobre o café fraco ou dizer que está cansado para fazer amor. Ao acordar, talvez você consiga ser capaz de despertar pra realidade e, com sorte, ainda correr atrás de sua felicidade. Ela não se encontra mais nos meus braços, sinto muito! O bilhete diz tudo o que eu sempre tentei falar, e você nunca ouviu.

“Sinto saudades do homem de verdade com quem me casei. Diga a esse estranho, que eu não fico! Acabou!”

Adeus!

Mayra Peretto

Uma mulher de cabeça e coração sempre cheios! Capricorniana da gema, produtora de eventos por profissão e escritora pra vida. Apaixonada pelo 'hoje', escreve sobre o que pulsa nas veias e escorre pelos olhos. Seus dias são feitos de poesias, boas músicas e muita luta!"
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