Dizem que homem não chora.


Miguel nasceu grande, seus 4 quilos e mais um pouco deram trabalho aos médicos e, claro, à mãe, que fazia questão de parto normal. Hoje, chamado parto humanizado, é uma procura de dar graça à arte de fazer sair uma melancia, por onde só passa um limão.


E Miguel anunciou firme e forte que chegara. No primeiro tapa abriu os pulmões em alto e bom som, talvez querendo dizer que aquilo não tinha sido nada legal, mas bem que também poderia ser um alerta de quem estava entendendo que a partir dali, os tapas seriam algo normal nessa vida.


Conjecturas e achismos à parte, ali estava Miguel, nome de anjo guerreiro, escolha orgulhosa de seu pai, que já anunciou – “filho meu é homem e homem não chora”. Gente simples curtida pelo tempo, o pai do Miguel já tinha visto um bom tanto de coisas que, ao que parecia, haviam-lhe secado as lágrimas.


E Miguel cresceu, espichou e não chorou. Teve uma primeira briga na escola que uns bons socos foram trocados. O coleguinha de Miguel parece que tinha levado a melhor, embora fosse pra casa com um dente faltando. Mas Miguel não estava nada apresentável quando chegou em casa: um olho roxo e uma perna mancando. Seu pai apenas olhou e viu que o Miguel estava firme e forte – e roxo – mas, sem nenhuma lágrima e isso, encheu aquele velho de orgulho.

E mais anos passaram, mais brigas vieram e nenhuma lágrima caiu. Ao que parece o pai de Miguel tinha acertado, pois ali estava um anjo guerreiro, bravo, macho e sem chorar, nem no enterro do avô, que, embora Miguel tivesse bastante contato, não fora suficiente para que uma lágrima caísse.


E assim os anos seguiram, a escola ficou pra trás e veio a faculdade. Alguns namoricos aconteceram, alguns deslizes foram escondidos e então o inevitável aconteceu: Miguel se apaixonara. A menina nem era lá aquelas coisas – diziam todos os amigos de Miguel – mas ele estava feliz ao lado dela e era isso que interessava. Os amigos viam apenas o porte físico da moça, enquanto Miguel via o bem que ela lhe fazia.


Ambos se formaram, vieram as responsabilidades, novos sonhos se formavam no horizonte e suas vidas, até então entremeadas, começavam a ficar paralelas. Sua namorada – futura noiva – estava de viagem marcada para o exterior. Era uma oportunidade imperdível para sua carreira e, afinal, seriam apenas 3 meses. Na volta um novo cargo a esperava e um novo salário a pagaria melhor. Pra quem pensava em casamento, quem desperdiçaria essa oportunidade? E além disso, Miguel poderia focar em novos cursos e também crescer profissionalmente. E ambos optaram por este retiro profissional.


Um mês passou, a saudade era imensa e os telefonemas eram constantes. Mas, tudo isso era para um futuro melhor. O segundo mês veio bem mais rápido e o terceiro e derradeiro mês parece que se arrastou. Em um dos telefonemas, Miguel conversava com sua namorada sobre o casamento. Ele perguntava muito sobre tudo, afinal, ele queria saber o que acontecera, pois o noivo não seria ele. É… naquela manhã de domingo, Miguel recebera a notícia de que sua namorada iria se casar. Ah, estava grávida e então, por conta de pudores da família, o casamento iria sair rápido. E Miguel estava sendo comunicado desse novo desvio de rota. E a primeira lágrima caiu. Miguel foi pra casa e lá chorou por 5 dias seguidos. E quanto mais vinha a lembrança do seu pai dizendo que homem não chora, mais Miguel chorava.


Após 5 dias Miguel percebeu que algo havia mudado.Via as coisas de maneira diferente, sentia o que as outras pessoas estavam sentindo. Se elas estavam alegres, Miguel também se alegrava, se elas estivessem com problemas, então Miguel também sentia as mesmas dores.


E os dias foram passando e Miguel chorou outras vezes. Quando ganhou um prêmio importante para sua carreira, foi a segunda vez que chorava. E quanto mais chorava, mais Miguel sentia que crescia como pessoa, era como se cada lágrima desafogasse milhões de mágoas do passado e lavasse e levasse tudo de ruim que habitava seu coração.


E os dias foram passando. Miguel conheceu outra pessoa! Ficaram juntos, namoraram , brigaram, separaram, voltaram e casaram. E choraram juntos, choraram quando disseram o sim. Choraram quando se despediram de suas famílias e choraram quando estavam, enfim, sós.


A vida, completando seu círculo, levou pessoas e trouxe lágrimas. Mas também trouxe pessoas, dessas pequenininhas que chegam pra completar um espaço vazio… E Miguel também chorou quando essa pessoinha chegou. E Miguel chorou muito quando seus pais se foram e nesse momento agradeceu por saber que, segundo a ciência e as estatísticas, ele iria embora primeiro que sua amada e não precisaria chorar por ela. O que Miguel não sabia que é que seu nome carrega o estigma do guerreiro e ele não seria poupado disso. Muito tempo depois, Miguel teve que chorar por sua amada. E chorou tantas vezes que achava que não iria suportar a dor. Mas nesse momento, Miguel teve uma revelação: as lágrimas trazem amor. 

Toda a raiva e mágoa que sentia por aquela que fez ele derrubar a primeira lágrima tinha se dissipado sem que ao menos ele perceber. E então ele a agradeceu em pensamento, por ser a causadora de todas as lágrimas que ele derramou por uma vida, mas que fizeram dele uma pessoa muito melhor. De tudo o que seu pai havia ensinado, só a lição de que “homem não chora” foi jogada fora, pois Miguel comprovou que só é possível viver essa vida, lavando a sujeira que está na alma com lágrimas.





Beijocas
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admin

10 comentários em “Dizem que homem não chora.

  1. Eu como chorona assumida e sem-vergonha sei que chorar lava a alma mesmo. Tira o stress, o peso, alivia a ausência e a dor. É como se, com cada lágrima, caísse junto um pedaço daquilo de ruim que fica dentro de nós. E aí um dia, quando as lágrimas secam, repara-se que a dor também se esvaiu.

  2. Domingo fui visitar um casal de amigos que acabara de ter seu bebê e a mãe disse algo que eu não sabia: que os recém nascidos não derramam lágrimas quando choram, depois de um certo tempo, pouco menos de 1 mês as lágrimas começam a cair como gotinhas mesmo, e demoram mais ainda para escorrer e molhar de verdade.

    Lendo o texto e lembrando disso percebi que é como a criança, só quando a gente cresce é que a gente chora de verdade.

  3. Rubens, acompanho o blog a algum tempo, e peço permissão para ser um pouco crítico: sinceramente seus textos são incríveis, e além de eu considerá-los genuinamente espontâneos, você trata os assuntos com uma sobriedade que apenas os anos dessa vida nos permitem atingir. Seus textos são mais atemporais e menos “viciados” que os textos escritos pelos demais membros. De qualquer forma, o blog em geral é ótimo, e todos escrevem com o coração. Já em relação à maturidade, você é o “cara” do blog. Parabéns! abs

  4. Eu não sabia disso Jean, muito interessante. Um usa o choro como sobrevivência, nós como válvula de escape da emoção (feliz ou triste…).
    Anônimo, fico feliz que você tenha localizado o coração na escrita. Tenha certeza que sempre é feito com o coração. Valeu demais,mesmo.
    Fábio, Gi, Aninha e Bianca, o choro é a voz dos olhos. Valeu por todos os comentários povo lindo.

  5. Concordo plenamente com o anônimo, os textos do Rubão são de longe, melhores que os demais! Mas… é justamente por isso que exercitamos nossas mentes escrevendo, para um dia escrevermos assim! 😉
    Rubão, você é o cara! E sou sua fã desde muito antes de poder lhe chamar de amigo! E sou muito feliz de hoje poder lhe chamar assim!
    Parabéns, de verdade por esse dom! Ou seria por essa experiência?
    Nós não te invejamos não… nós te amamos! =)

    Fly away!

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