Dois passageiros da minha vida

0

Todos os dias, pego um ônibus para voltar para casa do trabalho. E vou falar, ônibus é um verdadeiro laboratório para quem gosta de analisar comportamentos como eu, mas sem nenhuma pretensão de dar um diagnóstico. É só percepção mesmo.

Estava eu, sentada na minha poltrona colada na janela, ouvindo música com meus fones quando entraram dois homens. Entraram gritando e agradecendo o motorista por ter parado onde, na verdade, não era ponto.
Meu primeiro pensamento foi: “Parem de gritar, estamos em ônibus lotado!” com cara de enfezada para completar o pacote “Quero minha casa logo”. O tempo todo durante a viagem, os dois homens ficaram de pé conversando com o cobrador, fazendo brincadeiras, dando risada e, ao irem para a porta de saída, mais uma vez gritaram “valeu, motô”, puxaram papo com os outros passageiros sentados – que corresponderam com bom humor e um deles até deu um aperto de mão – e desejaram um “bom descanso pá todo mundo.”

Imagem: Reprodução.

Quando eu vi, eu mesma estava contagiada. Aquele primeiro pensamento tinha ido embora e deu lugar a um completamente diferente, livre de preconceitos e regras de etiqueta. Eu pensei: “E não é que esses caras são carismáticos?”. Eles tiraram sorrisos de mim e de mais um bom tanto de pessoas que voltavam cansadas para casa. Alegraram, ainda que sutilmente, um momento de nossas vidas.

Naquele momento, esses dois homens que, muito provavelmente, eu não vou mais encontrar, fizeram uma coisa que raramente vejo por aí: eles estavam abertos para outras pessoas. E fizeram outras pessoas se abrirem – como eu, que retribui as brincadeiras com risos ainda que tímidos. Não tinham medo de julgamentos, simplesmente estavam ali sendo do jeito que queriam ser.

Achei fantástico. Ainda mais fantástico, porque eu desci do ônibus com um ânimo que, para falar a verdade, é foda de ter depois de 1 hora de trânsito para chegar em casa. Foi uma sensação nova. Uma vontade de escrever, de viver, de estar com os ouvidos mais atentos – não para a música dos meus fones –, mas para escutar a voz de tantos outros passageiros e suas mensagens silenciosas que vida vai me trazer durante o caminho.

Últimos posts por admin (exibir todos)

You might also like More from author

Leave A Reply

Your email address will not be published.