É como andar de bicicleta

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Leia ouvindo: Cidade Negra – A Estrada

Uma vez que você tenha aprendido a andar de bicicleta, nunca mais esquece. Podem se passar anos, mas se você já fez isso antes, conseguirá novamente. Faz parte da sua memória motora. Claro que até conseguir se equilibrar você caiu. Se foi como eu, caiu feio. Raladas no joelho, medo do Merthiolate (costumava arder). Também deve ter colocado a mão na frente para tentar se machucar menos na hora que viu que a queda era inevitável. Antes de fazer sozinho, teve ajuda das rodinhas, de uma mão que segurava a bicicleta até sentir que você realmente estava pronto para seguir adiante. Mas em algum momento, depois de tudo isso, você finalmente conseguiu. Encontrou um ponto de equilíbrio e foi.

Cate Blanchett by Annie Leibovitz.
Cate Blanchett by Annie Leibovitz.

Aprender a andar de bicicleta é o mesmo exercício que fazemos para encontrar nosso próprio eixo, só que mais intenso, longo e contínuo. Aquele momento em que a mão solta a bicicleta e te deixa livre para seguir sem cair é a vida mostrando que você encontrou a viga que te manterá em pé apesar de ventos fortes. E, por mais que você não perceba, isso nunca sairá de você. Se existisse um nome para esse tipo de memória, acho que poderia ser a memória construtora. É em volta desse eixo que você conseguirá elaborar e vivenciar seus sonhos, sem ralar o joelho novamente. Entretanto, não podemos subestimar jamais o desequilíbrio. Ele é fundamental para a construirmos nossa resiliência. Antes de ser apresentado ao seu eixo, você definitivamente precisa conhecer o que te afasta dele. O desequilíbrio faz parte do aprendizado e, paradoxalmente, te aproxima do seu eixo. Não se sabe o que é a luz sem ver a escuridão. Pense em pessoas, sentimentos, situações que te levaram a um nível de inconsciência tão forte que, olhando agora, você não se reconhece. Apesar de terem sido momentos de descontrole – por favor, não crie uma imagem mental de pessoas quebrando pratos ou arrancando os cabelos, pois esse descontrole que falo não é uma explosão, mas sim períodos das nossas vidas em que estamos à mercê –, se você conseguiu absorvê-lo, certamente se aproximou do seu norte. O seu eixo não vai te tornar inflexível ou inabalável. Não vai impedir acidentes ou desvios de rota. Mas uma vez encontrado, sempre estará na sua memória como um ponto de referência para onde você sabe voltar. É como andar de bicicleta.

Natália Mota

A inércia me incomoda e nisso Raul me define: uma metamorfose ambulante. Geminiana de coração mole e tagarela com voz ardida. Publicitária por acidente. História é mais do que o passado, é inspiração para a minha própria história. As palavras colocam em ordem o que só eu vejo. Aos poucos, fazendo minha biblioteca.
Orgulho por também ser uma onça.
Natália Mota

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