Ele me ligou pra falar sobre ela!

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Leia ouvindo: Coldplay – Fix You

Era o fim de um dia estressante, o carro completamente parado no trânsito da 23 de Maio. A música que tocava no rádio era ruim, o frio que invadia a janela incomodava, eu estava tão cansada que só desejava a minha cama e uma boa dose de silêncio. Os dias corridos me fizeram anestesiar a dor do peito. Era um protótipo do esquecimento que eu desejava viver em breve. Eu fingia não pensar nele enquanto preenchia planilhas e resolvia problemas nas longas reuniões.

O telefone tocou. Alto, como não fazia há algum tempo. Um susto, o nome na tela era o que eu desejei ler por dias a fio. Por ironia de um destino que gosta de brincar comigo, naquele momento eu desejei que fosse outra pessoa. Hesitei, pensei em cancelar a ligação e, imediatamente, desligar o celular. Hesitei novamente. Eu não tinha motivos pra fugir. Nunca tivera!

‘Alô?’, falei num tom frio. Silêncio! Ambos sabíamos que isso seria desastroso. Ele perguntou se eu estava bem, menti que sim! Ele perguntou se eu já estava em casa, menti também. Disse que estava a caminho de um happy hour com uns amigos da época da faculdade. Silêncio! Perguntei se podia ajudar em algo, sendo pela primeira vez durante aquela conversa, honesta! Ele respondeu, num atropelo, que precisava conversar! O meu silêncio consentiu e ele, obviamente sem ter ensaiado o discurso, começou uma sessão cruel de tortura.

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[ Imagem: reprodução ]

Disse que não estava vivendo dias bons. Que não sabia o que havia feito da própria vida, que tinha medo de ter errado muito e principalmente, de não dar mais tempo de voltar atrás. Disse que não conseguia dormir há dias, que havia emagrecido 2 quilos, que perdeu o brilho. Quando eu pensei que nada poderia ficar pior, ele me surpreendeu. Disse que gostava dela, mas que o ciúme que ela sentia era doentio. Que quando estavam vivendo dias bons, tudo era muito bonito mas que as brigas eram muito mais constantes e ele realmente não sabia o que fazer para melhorar essa situação. Disse que pensou em fazer uma viagem surpresa, ou que talvez seria interessante irem ao show do cantor que ela tanto gosta. Que precisava de uma ajuda, que suas esperanças estavam se esgotando. Me disse, no auge da crueldade, que precisava entender o segredo da paz que vivia quando estava comigo, saber qual era a fórmula para evitar esses grandes problemas, o que eu fazia para não surtar com o seu jeitão desligado. ‘Somos amigos, não somos? Podemos falar sobre essas coisas, certo?’, ele disse!

Eu afastei o telefone do ouvido por alguns segundos, pude notar que ele seguiu falando. Respirei tão fundo quanto pude, apertei o botãozinho vermelho, encerrei a ligação. Existia um rio amargo nascendo em meus olhos, um choro doído, soluçado, que em momento algum eu gostaria que fosse ouvido por ele. Eu não conseguia me perdoar por sentir tanto, por querer tão bem alguém que claramente não se importava mais comigo.

Entregamos, diariamente, segundos preciosos de nossas vidas às pessoas que cruzam os nossos caminhos. O que, por vezes, esquecemos é que essa entrega é geradora natural de sentimentos bons e também ruins. Alegramos, magoamos, incentivamos, enlouquecemos. O que eu não consigo entender é como fica a consciência de alguém que se esforça tanto em ser leviano com o coração alheio. Será que ele dorme em paz? Que Deus o perdoe, prefiro acreditar que ele não sabe o que faz!!!

Chorei como se exorcisasse um demônio, como se expurgasse em lágrimas o que morava dentro de mim e que precisava ser despejado. Hora ou outra, preciso agradecê-lo. Talvez se não fosse por essa ligação e por tamanha crueldade, eu jamais conseguiria enxergar o quanto a sua partida foi providencial. Ir embora foi o maior presente que ele me deu! Sequei as lágrimas e pensei: pronto, acabou! Que venha a vida nova!

Mayra Peretto

Uma mulher de cabeça e coração sempre cheios! Capricorniana da gema, produtora de eventos por profissão e escritora pra vida. Apaixonada pelo 'hoje', escreve sobre o que pulsa nas veias e escorre pelos olhos. Seus dias são feitos de poesias, boas músicas e muita luta!"
Mayra Peretto

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