Em busca de um homem sensível

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O texto é de 1974, mas eu nunca vi nada tão atual e verdadeiro. Anais Nin, escritora e amante de Henry Miller, ficou famosa por publicar seus diários e também por essa obra incrível chamada, “Em busca de um homem sensível.”

O texto é uma obra-manifesto para a mulher moderna e por que não aos homens. A bola vez (que na verdade sempre foi…), é a sensibilidade!

No último ano passei a maior parte do meu tempo nas Universidades, em companhia de mulheres jovens que preparavam suas teses de doutoramento sobre a minha obra. A discussão sobre o meu Diário sempre desembocava em conversas íntimas e pessoais sobre as suas próprias vidas. Assim, percebi que os ideais, os fantasmas e os desejos dessas mulheres estavam passando por uma transição.

 Inteligentes, bem-dotadas, integradas nas atividades de seu tempo e na criação, elas pareciam já ter superado a atração exercida pela concepção convencional da virilidade. Elas já tinham aprendido a criticar o “macho” autentico, com sua falsa masculinidade, sua força física, sua aptidão para o esporte, sua arrogância, e o que é mais grave, sua falta de sensibilidade.

O herói de O Último Tango em Paris causava-lhes repulsa. O sádico, o homem que humilha a mulher para demonstrar um poder de fachada. Os chamados heróis, como na literatura de Hemingway ou Mailer, essa força ilusória. É o que denunciavam e recusavam essas novas mulheres, inteligentes demais para serem enganadas, muito espertas e orgulhosas para se sujeitarem a esse aparato de poder que, em vez de protegê-las (como acreditavam as gerações anteriores), comprometia suas existências individuais.
Elas se voltavam para o poeta, o músico, o cantor, seu colega de estudos sensível – o homem natural, sincero, sem arrogância, sem ostentação, interessado pelos valores reais e não pela ambição, aquele que odeia a guerra, a cupidez, o mercantilismo e o oportunismo político. Enfim, um novo tipo de homem para um novo tipo de mulher.

Eles se ajudaram um ao outro na Universidade, dedicaram-se poemas, cartas íntimas onde se abriam um ao outro, eles reconheceram o valor de seu amor, consagraram-lhe tempo, atenção e cuidados. A sensualidade impessoal nunca os interessou. Ambos desejavam fazer apenas o que gostavam.
Encontrei muitos casais que cabiam nessa descrição. Um não dominava o outro. Eles partilhavam as diferentes tarefas, cada um executando a que mais lhe convinha, sem papeis fixos ou limites. A gentileza era seu traço comum. Não havia “cabeça” do casal nem responsável pelo sustento da casa. Eles aprenderam a arte sutil tão humana da oscilação. Força e fraqueza não são qualidades imutáveis. Todos nós temos nossos dias de força e de fraqueza. Eles tinham a noção da harmonia, da maleabilidade, da relatividade. Cada um contribuía com o seu saber e suas próprias intuições. Nesses casais não há guerra de sexos. Nem contratos baseados nas regras do matrimonio. A maioria não sente necessidade de se casar. Alguns desejam filhos, outros não. Ambos têm consciência da função do sonho – não como um sintoma de neurose, mas como indicadores da nossa natureza secreta. Eles sabem que um e outro têm qualidades masculinas e femininas.

Algumas destas mulheres eram objetos de uma nova angustia. Como se, tendo vivido tanto tempo sob o domínio direto ou indireto do homem (que determinava seu estilo de vida, seus modelos e deveres), elas tivessem se acostumado; e quando isso acabou, que elas estavam livres para tomar decisões, mudar, exprimir seus desejos e dirigir suas próprias vidas se sentiam como barcos sem leme. Vislumbrei essas duvidas em seus olhos. Será que elas deveriam considerar a sensibilidade como gentileza excessiva? A tolerância como fraqueza? Faltava-lhes essa autoridade, essa coisa mesma contra a qual tinham lutado tanto. Afinal, a rotina se instalara há tanto tempo. Mulheres dependentes. Algumas independentes, mas tão poucas em relação às dependentes. E a oferta de um amor total era tão rara. Um amor sem egocentrismo, sem exigências, sem restrições morais. Um amor que não definisse as obrigações das mulheres (você tem de fazer isto e aquilo, me ajudar no meu trabalho e apoiar e estimular a minha carreira). Um amor eqüitativo. Sem tiranias nem ditadores. Estranho. Todo novo. Como um país novo. Não se pode ter ao mesmo tempo dependência e independência. 

Podemos alterná-las, de tal modo que elas cresçam sem entraves nem obstáculos. O homem sensível tem consciência das necessidades das mulheres. Ele procura deixá-la existir por si mesma. Mas às vezes as mulheres não percebem que os elementos que lhes faltam são exatamente os que impediam sua expansão, sua mobilidade, sua evolução. Elas confundem sensibilidade com fraqueza. Talvez porque falte ao homem sensível a agressividade do “macho” (agressividade que o empurra para a política, os negócios, às expensas de sua vida familiar e das relações pessoais).

Conheci um jovem herdeiro, responsável por um grande empreendimento, que não esperava que sua mulher atendesse aos convidados, se ocupasse de pessoas que não a interessavam ou que o acompanhasse nos seus negócios. Ela pôde prosseguir suas próprias atividades, que eram no caso psicologia e formação de assistentes pessoais. No principio ela teve medo de que a disparidade entre os amigos – os homens de negócios de um lado e psicólogos de outro – criasse duas vidas completamente separadas e os afastasse um do outro. Ela levou algum tempo para perceber que sua experiência psicológica servia de uma outra maneira os interesses do marido. Ele aprendeu a lidar com seus empregados com mais humanidade. No dia em que um empregado foi apanhado roubando gasolina da firma quando servia os outros empregados, o patrão pediu-lhe que ele lhe contasse sua vida. Descobriu assim a razão do delito (despesas muito elevadas com uma criança no hospital) e pôde remedia-la, em vez de despedir o empregado, ganhando a partir de então um funcionário leal. Os interesses do casal, tão divergentes à primeira vista, passaram a ser interdependentes.

Um outro casal de escritores decidiu que cada um lecionaria durante um ano para que o outro pudesse escrever. O marido já era um escritor conhecido. A mulher publicara apenas alguns poemas em revistas e preparava um livro de crítica. Quando foi a vez da mulher de ensinar, o homem começou a ser tratado como o marido de um dos membros da Faculdade e lhe perguntavam nas reuniões: “O senhor também escreve?”. A situação poderia ter dado origem a mal-entendidos. A mulher conseguiu solucioná-la, fazendo republicar no jornal da Universidade um artigo sobre o último livro de seu marido. O que restabeleceu a verdade.

Certas mulheres jovens estão se engajando na ação política no momento em que os jovens desiludidos a abandonam. A nova mulher tem vencido suas batalhas. O fato de que certas leis tenham sido modificadas fez renascer a fé do novo homem. Em política, as mulheres são como Davi e o gigante Golias. Acreditam na eficiência de uma única pedra. Sua fé se revigora quando elas e os maridos “estão na mesma”, como costumam dizer.
A antiga posição do homem obcecado pelos negócios, cuja duração da vida era reduzida por uma constante tensão nervosa e terminava com a aposentadoria, foi completamente transformada por uma jovem esposa que encorajava seu “hobby”, a pintura, a ponto de levá-lo a se aposentar mais cedo, para poder se dedicar à arte e às viagens
Nestas situações, nota-se um esforço para conciliar os interesses, em vez da antiga insistência imatura nas diferenças irrecuperáveis. Com a maturidade vem a convicção de que as atividades se interligam e alimentam umas às outras.

Uma outra fonte de espanto para a nova mulher é a constatação de que muitos dos novos homens não têm mais aquela antiga ambição. Eles não querem perder sua vida à procura da fortuna. Querem viajar enquanto são jovens e viver o presente. Encontrei-os viajando de carona na Grécia, na Itália, na Espanha e na França. Eles viviam totalmente o presente, e aceitavam a fadiga em nome das aventuras vividas. Uma jovem que não se sentia em forma para enfrentar essas dificuldades levava um monte de vitaminas no seu único fardo. Ela me disse: “No principio, ele ria de mim, mas quando compreendeu que eu temia não suportar fisicamente a viagem, tornou-se bastante protetor. Se eu tivesse me casado com um homem tradicional, sua concepção de proteção seria me deixar em casa. Eu não teria aproveitado todas essas maravilhas que descobri com David; ao desafiar minha força, ele me tornou mais resistente”. Não ocorreu a nenhum dos dois renunciar, enquanto jovens, a esse sonho de viagem.

A pergunta que as mulheres jovens mais me fazem é a seguinte: como pode uma mulher criar uma vida própria quando é a profissão do marido que comanda sua maneira de viver? Médico, advogado, psicólogo ou professor, é a profissão do marido que determinará o lugar onde devem morar, e, portanto o meio onde conviverão.
A conhecida pintora e professora Judy Chicago descobriu, num estudo sobre pintoras, que, enquanto todos os homens tinham seus ateliês separados da casa, as mulheres eram obrigadas a trabalhar na cozinha ou em outra peça da própria casa. Mas muitas mulheres levaram ao pé da letra o titulo de Virginia Woolf, A Room of One’s Own (Um Quarto só para Si) e alugaram ateliês separados da residência familiar. Um casal que vivia numa casa de uma só peça instalou uma tenda no terraço para a mulher poder escrever. Mesmo o sentimento de “ir trabalhar”, o ato físico de se separar, o sentido de valor que o isolamento confere ao trabalho, tornam-se um estimulo e ajuda.

Criar uma nova vida não significava para elas um afastamento ou uma separação. É impressionante como qualquer ruptura ou separação comporta, para a mulher, uma idéia de perda, como se o cordão umbilical simbólico ainda comandasse a sua vida afetiva, como se cada ato constituísse uma ameaça à unidade e aos vínculos.


Esse temor próprio das mulheres e não dos homens, foi-lhes, no entanto, inculcado pelos homens. Levados pelas ambições, absorvidos e submersos pelas suas profissões, os homens sempre se separavam de suas famílias e estiveram menos presentes juntos aos filhos. Mas o que aconteceu com eles não tem necessariamente de se reproduzir com as mulheres. São nos sentimentos que residem os vínculos indissolúveis. Não nas horas passadas com o marido e as crianças, mas na qualidade e na plenitude dessa presença. O homem está quase sempre fisicamente presente e mentalmente ausente. A mulher é bem mais capaz de deixar de lado o seu trabalho para se consagrar a um marido exausto ou a um dedo machucado de um filho. Mesmo que as mulheres tenham visto o pai “partir” para o trabalho, ainda não se liberaram da angustia no momento em que devem “partir” para reuniões, conferencias ou outras obrigações profissionais.

Para a nova mulher, assim como para o novo homem, a arte de aliar e conciliar interesses opostos será um desafio. As mulheres de hoje não querem mais um marido inexistente, casado com o Big Business; elas estão dispostas a aceitar uma vida mais simples, que lhes permita aproveitar mais um marido cujo sangue não foi sugado pelas grandes companhias. As novas mulheres renunciam cada vez mais ao luxo.

Gosto de vê-las vestidas com simplicidade, descontraídas, naturais, sem máscara. Mas a fase de transição colocou um problema delicado para as mulheres: como deixar de ser dominada, sem identidade, como se unir ao outro sem perder sua identidade? O novo homem tem ajudado bastante porque ele também quer mudar, passar da rigidez à flexibilidade, da mentalidade atrasada a uma mentalidade aberta, dos papéis desconfortáveis à ausência tranqüila de papéis.

Uma jovem recebeu certa vez um convite para ser professora em outra cidade. O casal não tinha filhos. O jovem marido disse: “Vá, se é isso que você quer”. Se ele não tivesse concordado com essa proposta, que lhe permitia avançar na carreira, ela teria se ressentido. Como ele a deixou partir, ela pensou que ele não a amava o suficiente para retê-la. Ela partiu com a impressão de estar sendo abandonada, e ele também ficou com a impressão de ter sido abandonado. Esses sentimentos ficaram completamente inconscientes. Esta separação de quatro meses poderia ter causado uma ruptura. O que só não aconteceu porque eles acabaram falando sobre esses sentimentos e rindo de suas ambivalências e contradições.

Se no inconsciente ainda temos reações impossíveis de controlar, poderemos pelo menos impedi-las de nos prejudicar no presente. Se ambos, inconscientemente, ainda podiam ter medo de serem abandonados, tinham de descobrir um de se libertar do seu comportamento infantil. Escravos de seus terrores infantis, eles nunca teriam podido deixar suas casas. Ao confessarem seus temores, acabaram rindo dessa inconseqüência: querer ao mesmo tempo ser livre e controlado pelo outro.

Em geral, a afirmação das diferenças na nova mulher emergente está fortemente marcada por uma impressão de dissonância e de falta de harmonia, mas trata-se apenas de um problema de relações, como na relação entre arte ciência, ciência e psicologia ou religião e ciência. Não são as semelhanças que criam harmonia, mas a arte de combinar entre seus variados elementos que enriquecem a vida. As atividades profissionais costumam exigir um excesso de concentração, o que limita a experiência pessoal. A introdução de novas correntes de pensamento, ao alargar o campo de interesses, é benéfica para homens e mulheres.

Talvez certas mulheres novas e certos homens novos tenham medo da aventura e da mudança. Margaret Mead, que procurou um marido que partilhasse de sua paixão pela antropologia, acabou tendo de se dedicar ao estudo do nascimento e da educação das crianças, enquanto o marido se consagrava aos mitos e lendas das tribos. Um interesse comum nem sempre é sinônimo de igualdade.

Todos carregamos dentro de nós a semente das ansiedades infantis, mas à vontade de viver com os outros em perfeita harmonia levou-nos a aprender a “integrar as diferenças”. Quando observo esses jovens casais, que resolveram os problemas colocados por esta nova consciência e pelas novas posições, sinto que talvez estejamos chegando a uma era de humanismo em que as diferenças e desigualdades serão vencidas sem guerras.

Yoko Ono propôs a “feminização da sociedade. A utilização das qualidades femininas
como força para mudar o mundo… Evoluir em vez de se revoltar”.

A capacidade de empatia que os novos homens tem demonstrado com relação às mulheres vem da aceitação, por sua parte, do aspecto afetivo, intuitivo, sensorial e humano de seu próprio comportamento. Eles se permitem chorar (um homem nunca chora), expor sua vulnerabilidade, confessar seus fantasmas e partilhar a sua mais profunda intimidade. Certas mulheres estão confusas com esse novo convívio. Elas ainda não perceberam que para chegar a empatia é preciso sentir até certo ponto o que o outro sente. Isto significa que, se a mulher pretende afirmar sua criatividade e seu talento, o homem tem de demonstrar, por sua vez, sua aversão pelo que se esperava dele no passado.

Esse novo tipo de homem jovem que tenho encontrado adapta-se muito bem a nova mulher, mas ela ainda não sabe apreciar completamente sua ternura, sua proximidade cada vez maior com a mulher, seu desejo de semelhança e não de diferença. Todo povo que viveu algum tempo sob uma ditadura em geral é incapaz de se governara si mesmo logo em seguida. Esta incapacidade é transitória: ela pode significar o início de uma vida e de uma liberdade totalmente novas. Aí está o homem. Ele é igual a você. Ele a trata como um igual. Nos momentos de incerteza você ainda pode discutir com ele certos problemas sobre os quais não poderia falar a vinte anos atrás. Como eu costumo dizer as mulheres de hoje – sobretudo não confundam sensibilidade com fraqueza. Esse erro quase levou nossa civilização a ruína. A violência foi confundida com o poder, e o abuso do poder com a força. A submissão ainda aparece em filmes, no teatro, nos meios de comunicação.

Gostaria que o herói de O Último Tango em Paris tivesse morrido logo. E ele só morre no fim do filme. Toda a duração de um filme! Será que as mulheres precisarão de tanto tempo para perceber o sadismo, a arrogância, a tirania, tão dolorosamente presentes no mundo, na guerra e na corrupção? Iniciemos uma nova era de honestidade, de confiança, sem falsidade nas nossas relações pessoais; a história do mundo e o desenvolvimento das mulheres sairão ganhando.


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