Eu, ele e a pinta

Ele tinha uma pinta no pescoço. Uma pinta grande no pescoço. Uma pinta que a gola da camiseta ficava raspando. Que aflição. Se não fosse para ser ele, essa pinta teria sido o pivô da nossa separação. Já tinha “terminado” tantos outros rolos por coisas muito menos incômodas, como pés gordos, mãos feias e nomes que eu considerava estranhos de serem ditos a dois. Por quase nada, eu simplesmente fugia do cara. Algo não me agradava e pronto. Lá estava eu dando uma desculpa das mais esfarrapadas, confesso.

Se não fosse para ser ele, no primeiro beijo em que vi a tal pinta, teria fugido também. Mas não. Não foi isso que aconteceu. Eu vi a pinta. Ela estava ali, raspando na gola da camiseta. Dessa vez, não senti vontade nenhuma de sair correndo. Pelo contrário. Quis ficar ali, pra sempre. E quando a gente sente que é pra valer, é assim. Não quer mais largar. Qualquer “defeito” aparente passa a ser a coisa mais charmosa do mundo. E quando aquela pinta não me incomodou, sabia que era ele o cara. Simples assim.

Hoje, a pinta não existe mais. Foi arrancada por uma questão dermatológica e não estética, que fique claro. Hoje, aquela vontade de ficar pra sempre é a mesma, ou até maior, diria. Simplesmente pelo fato da gente tem encaixado um no outro. Encaixado no jeito de olhar, no jeito de falar, de abraçar e no jeito de ficar na cama. Como um quebra-cabeça que a gente monta sem dificuldade. Para mim, quando a gente não quer, a gente complica demais. Faz questão de implicar com o jeito do cara andar, de comer ou de se vestir. Complica pra sair de casa, complica pra escolher a roupa, complica para entender a outra pessoa. Faz um nó difícil de desatar. E assim, não há santo Antônio de ponta cabeça que dê jeito.

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Mesmo sem a pinta, continuo encantada por ele. Encantada pelo jeito que ele cuida de mim e pelo jeito, ainda que teimoso, que me deixa cuidar dele. Fico encantada quando, no fim do dia, ouço a chave virar no trinco da porta e ele chamar: amor?! Ou quando chego em casa e ele está ali, sorrindo. É um instante de felicidade que não tem fim.

Então, quando é pra valer mesmo, a gente desencana do príncipe encantado e fica com o homem que nos faz feliz nos dias mais chatos e nos abraça apertado nos dias mais assustadores. Ele não precisa ser perfeito. Ele nunca vai ser perfeito. Ele só precisa encaixar.

Assinatura LíviaA Lívia também tem um blog, é o emcimadomuro.org 😉

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admin

10 comentários em “Eu, ele e a pinta

    1. Olá, Letícia! Me desculpe pela demora!! Muito obrigada pelo comentário! Fico muito feliz em saber que soube traduzir esse sentimento tão bonito com minhas palavras! Beijos, Lívia

    1. Oi, Valéria! Muito obrigada! Comentários assim me inspiram ainda mais! Beijos para todos aí!

  1. Mais um belo texto (cativante do início ao fim)… Quanto dom com as palavras e as emoções…..

    1. Obrigada, Sandro!! Muito feliz com suas palavras e muito feliz em poder dividir essas emoções aqui no Dona Oncinha! 🙂

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