EU FICO COM O MEU QUINTAL

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Leia ouvindo: Agridoce – Dançando 

~ “É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.” e cá para nós? eu ando mesmo é preferindo ficar aqui, no meu quintal /
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tenho em mim toda a contradição e os excessos do mundo. a paz me perturba, a calmaria me agita. não é de hoje que eu não sei descansar.
minha mãe passou bons anos da vida me dizendo: você não tem sossego, cada hora quer uma coisa, nunca está satisfeita, tem rodinha no pé, é como fogo pegando em palha.
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bem, eu tenho Sol em Gêmeos e Marte na casa 1, e essa combinação, traduzida de forma simples, e já naquele bom e conhecido francês, significa: fogo no cú incontrolável para uma quantidade de assuntos incontáveis. somados algum tempo de terapia, uma obsessão pelo autoconhecimento e boa literatura, concluo: “Tem mais presença em mim o que me falta.” eu vou ficar aqui, no meu quintal.
Fotografia: Juliana Manzato.

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quando eu escuto uma música, é só ela que eu escuto. 30, 40 vezes por dia, “sem exagero. sonho com a música, decifro a letra da música, mando a música para todo mundo ouvir e jogo em uma pasta que eu sentimentalmente chamo de “addicted” (viciada). “Tudo que não invento é falso.”
gosto de muitas coisas durante pouquíssimo tempo. gosto de pouquíssimas coisas o suficiente para gostar com tudo de mim, o tempo todo.
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eu era velha quando criança e eu fui a criança mais velha que eu já conheci: responsável demais, emburrada, cheia de manias, queria escolher o almoço do dia e tomar conta da vida da minha irmã. depois eu fiquei jovem e jovem até demais: saia demais, viajava demais, gastava demais, namorava demais. a vida se tornou um eterno carnaval e outra vez eu me encontrava exatamente ali, no meu quintal. “Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.”
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atualmente eu envelheci de novo, vocês sabem, “sem tempo irmão”. mas francamente, a minha afilhada tem 12 anos, discute o tema social do filme do Coringa, debate a incongruência da construção da história em relação aos quadrinhos (temática que nem eu estava a par, para ser bem sincera), escolhe Bohemian Raphsody para tocar no carro e dorme comigo de mãos dadas. porque além de agradável, inteligente, nutrida de uma alma artista e de extremo bom gosto, ela é carinhosa e sensível.
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aí vem marmanjo de 35 anos na cara com discurso político fascista e machista, reclamar da exclusão e dos “blocks” nas redes sociais? “sem tempo, irmão!”.
mulher falar mal de mulher, recriminar decisão de mulher, se comparar com a outra mulher, julgar a mulher que não tem comportamento de mulher (seja lá o que isso sequer possa significar), criar contexto para competir e distorcer o feminismo sem ter investido 1% do tempo do seu dia para entender que o buraco é muito mais embaixo? “sem tempo, irmão!”.
papo furado, conversa fiada, discurso para inglês ver, hipocrisia disfarçada de moralismo? Lula Livre? Vish!
“Sou muito preparado de conflitos.” S-E-M T-E-M-P-O, I-R-M-Ã-O!”
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voltei a ler poesia e degustar os assuntos que me enlaçam, leio de 3 a 4 livros por mês. por que? porque é assim que eu me envolvo com aquilo que eu me envolvo – toda.
passei a falar menos e me expressar mais. o meu ‘não’ é seguido de ponto final. não tem justificativa, não tem desculpa. “Verso não precisa dar noção”.
gosto de gente que me manda mensagem: “Vai ver a Lua!”, ou com link para os textos do Valter Hugo Mãe. de gente que sai para tomar banho de Lua Cheia no parque, deita na canga ao meu lado para falar de vulnerabilidade e estraga meu jejum com esfirra. também gosto de gente que acha engraçado tomar banho de lua, mas acredita em sexo através dos chakras.
ultimamente, “Meu avesso é mais visível do que um poste”, então também por isso, eu vou ficar no meu quintal.
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eu prometo ser fiel a mim mesma, e então quem chegar, encontrará uma mulher inteira. não me venha com promessas e metades. “sem tempo, irmão!”. façamos nossos combinados, “Aonde eu não estou as palavras me acham”. e se quiser me achar, não tem mais erro, procure no meu quintal.
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eu posso não estar certa, e esse quintal pode estar pequeno demais.
talvez em breve eu volte a ser jovem, abra as portas, cometa alguns pecados. “Por pudor sou impuro. Não saio de dentro de mim nem pra pescar.”
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“Não preciso do fim para chegar.” Eu vou ficar com o meu quintal.
“Do lugar onde estou já fui embora.”

Carol Faria

Carol é escritora e comunicadora desde sempre. De alma livre e coração acelerado, nasceu assim, mas demorou alguns anos para entender que essa essência deveria estar em tudo o que faz.
Geminiana a dar com pau, queria ter feito jornalismo na primeira formação, já morou em vários lugares e acredita que ainda vai morar em muitos outros. tem 34 anos, é casada com o melhor amigo, gosta de tomar café na padaria portuguesa e de sorvete de pistache aos domingos. é viciada em salas de aula e de embarque, divide boa parte de seu tempo livre entre planejar viagens, viajar e ler vários livros ao mesmo tempo. fã de Chico, Bethânia, Los Hermanos e Adele. tem uma cachorra imaginária desde os 3 anos de idade, mas acredita que em breve ela se tornará realidade.
Carol Faria

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