Fato real

Meu querido e amado esposo!

Confesso-lhe que tenho já muito pouca vontade de escrever-lhe, não sendo merecedor de tantas finezas. Faz oito dias que me deixou e ainda não tenho nenhuma regra sua. Ordinariamente quando se ama uma pessoa, sempre se acha momentos e ocasiões de provar-lhe a sua amizade e amor. Estamos todos bem e tudo muito sossegado graças a Deus. Receba mil abraços e saudades minhas com a certeza de ser esta a última carta. [ininteligível] necessidade urgente de ter notícias suas. Desta sua esposa amante Leopoldina.*

Esta é a carta que a princesa Leopoldina escreveu para seu marido, Dom Pedro I, enquanto ele viajava, pouco tempo antes de declarar a Independência do Brasil. Quando li este trecho no livro 1822, de Laurentino Gomes, no mesmo instante me veio à cabeça: Eu te entendo e concordo com você, Leopoldina.

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Para quem lê os contos de fadas, em que as princesas são conquistadas por príncipes dispostos a matar dragões, quebrar feitiços e dar fim às bruxas, é um tanto quanto incômodo ver um relato de que na vida real não acontecem finais tão felizes como nos livros.

Leopoldina talvez tenha sido a precursora da ideia de “Quem quer, arranja um tempo. Quem não quer, arranja uma desculpa.”, haha. Perdão pela intimidade, mas é, princesa… Suas queixas também são nossas ainda hoje, só demos um jeito para que o que você escreveu ficasse com a cara dos nossos dias.

É uma constatação atemporal. Quando há disposição para fazer um relacionamento vingar – seja ele de qualquer natureza -, dá-se um jeito. Usam-se meios convencionais, alternativas fora do roteiro. Usa-se a imaginação.

E se existe disposição, é porque tem amor.

Ela não queria que Dom Pedro a resgatasse do alto de uma torre, queria apenas que o marido demonstrasse carinho em um simples gesto de querer estar presente apesar da distância e dos compromissos como príncipe.

E é isso. Não queremos grandes duelos com dragões para ver que outra pessoa se importa com a gente, queremos pequenos (mas valiosos!) momentos que expressam uma vontade maior do que as circunstâncias. É a vontade de estar junto, de compartilhar. Com essa vontade de amar em atitudes nos alimentamos para fazer o mesmo. É pura troca.

Porém, o outro e dolorido lado é que ver que não há essa tal vontade. Acontece mesmo, e fazer o que? Não se pode obrigar ninguém a amar ou a satisfazer nossos ideais de amor. Para esses casos, há a certeza de que sempre terá uma última carta, um derradeiro momento para dizer a alguém que este não é merecedor de tantas finezas.

*Carta de Leopoldina a Dom Pedro em 22 de agosto de 1822, Acervo do Museu Imperial de Petrópolis.

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