Fechado para reforma!

Leia ouvindo: Angus & Julia Stone – A Heartbreak

Desilusão: s.m. ação ou efeito de iludir, ficar sem esperança!

Me lembro bem da minha estreia. Eu chorando desconsolada no colo da minha mãe e ela, experiente, acariciava o meu cabelo e dizia: “fica tranquila que vai passar”! Hoje, quando me recordo do fatídico dia, me vem a sensação de dor, a estranheza diante do fim de uma história que, na minha cabecinha de adolescente, seria pra sempre! Mas não me lembro, nem se me esforçar muito, dos motivos pelos quais amei aquele cidadão, que dirá dos que me fizeram ir embora!

O intrigante é que a historinha contada nos romances da TV também não aconteceu no segundo relacionamento que vivi, tampouco nos próximos que sucederam até agora! Provei dos gostos mais amargos da desilusão! Conheci a traição, me deparei com a desonestidade e, principalmente com o desamor! Senti na pele a frieza do ser humano moderno e descobri que desiludir-me era mais natural do que pensava a minha versão adolescente! Aos poucos, aquele primeiro namoradinho foi perdendo a fama de vilão e eu, ainda que inconscientemente, começava a cultivar por ele certa gratidão! Ele havia sido o menos babaca entre todos os outros!

Seres humanos são verdadeiros colecionadores de histórias! Eu, além de gostar muito de contá-las, também me empolgo muito em vivê-las! Mas depois de tantas ondas fortes, fui me acovardando pro amor! Sentava na mesa do bar com as amigas e me sentia uma especialista em canalhice! No fundo, no fundo, aquele era um troféu que eu não queria mesmo ostentar! Mas era meu, reluzente na minha estante, me lembrando sobre a minha expressiva falta de tino pro amor! Eu, hora ou outra, me via culpando a sorte e até mesmo recorrendo às forças divinas pra tentar justificar essa constante!

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[ Imagem: reprodução ] 

Até que, num belo momento, quem desiludiu alguém fui eu! Saio em minha defesa visto que na minha cabeça estava extremamente claro quais eram as minhas intenções! Eu não queria me envolver com ninguém, trazia uma história cheia de problemas e um passado bem avassalador no porta malas! Mas ele era uma boa companhia, falávamos por horas a fio e tínhamos em comum o amor pela música! Éramos entrosados intimamente, nos entendíamos, estávamos confortáveis na presença um do outro! Mas era só! Não íamos além disso, na minha opinião! O que faltava? Paixão!

Eu o enxergava apenas como um bom amigo – ainda que pintado em várias cores – e não conseguia cultivar por ele nada além do que carinho e respeito! Que me perdoem os entusiastas, mas relação alguma sobrevive à base disso! Eu sabia que pra assumir um compromisso, era preciso incendiar por dentro, o coração deveria parar na boca a qualquer menção do nome dele e, principalmente, era necessário me flagrar, vez ou outra, nos imaginando protagonizando um futuro. A culpa era dele? Claro que não! Mas foi nesse exato momento em que eu descobri que a culpa também não era minha!

Eu até tentei, achei que no meio de tanta escuridão, aquela claridade não poderia me fazer mal. No entanto, eu não conseguia mais dormir e a insônia virou a minha companheira! Algo estava pesando, e eu sabia bem o que era. Puxei o freio de mão! Assim mesmo, em alta velocidade, deixando o carro girar no meio da rodovia! Era preciso refrear com urgência aquele sentimento que começava a existir dentro daquele bom coração. Eu tinha que ser clara pra tentar evitar maiores dores, era preciso abrir mão do egoísmo e da zona de conforto! Fiz o que pude, mas já era tarde demais! Ele tentou de tudo, foi doce, um cavalheiro como já não se faz mais hoje em dia. Não adiantou! Eu não sentia nada, e infelizmente aquilo não mudaria.

Foi só aí que eu pude perceber que a desilusão não vem somente daquele cara malvado que te usa e te joga fora, ou então daquele ex-namorado infiel! Não estou livrando a barra de todos os canalhas que já passaram pela minha – ou pela sua – vida, mesmo porque o que machuca é prosseguir iludindo, mesmo depois de reconhecer a ausência dos sentimentos. A mentira é o veneno!

Depois desse episódio, eu compreendi que era a hora de fechar as portas e janelas dessa casinha chamada coração e deixar a tal reforma acontecer em paz! Coloquei a plaquinha com o aviso ‘estamos em obras’ e fui cuidar de mim! Não é possível fazer uma nova mudança quando algumas coisas do antigo locatário continuam dentro dos armários e cômodas! É preciso paciência, deixar a vida esgotar o passado pra, só assim, ser leal ao futuro! Foi desiludindo que entendi que a minha felicidade é por minha conta, integralmente! Sou eu quem permite ao outro me enganar, iludir e maltratar. Criar expectativas é rascunhar sobre a imagem do outro, o príncipe encantado que você mesma idealizou. E então, deixamos de enxergar a verdade inédita que ele pode inaugurar em nossas vidas, impedindo que seja o que nós NÃO esperamos!

Existe uma magia inexplicável no inesperado, e mais do nunca, é preciso desmistificar a ilusão.

Mayra_2015

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