Ficou guardado

Leia ouvindo: George Ezra – Cassy O’

Era uma tarde comum. Não tinha nada de especial, nada de poético. Não havia chuva do lado de fora e nem cobertor do lado de dentro. Eu arrumava meu armário depois de um fim de semana de diversas roupas tiradas dos cabides em busca do look perfeito, quando no meio da bagunça avistei você. Não era foto, nem carta, nem pétala de uma flor de um tempo distante. Eram as lembranças do dia em que te conheci.

Eu usava aquele vestidinho esquisito que eu comprei por puro impulso consumista e que nem pertencia ao meu estilo. Veja só, foi a forma como me comportei dentro dele que te atraiu a mim. E foi a forma como veio até mim que me fez tira-lo pra você.

[ Imagem: reprodução ]

Senti sua falta. Não entristeci ou chorei, mas questionei um bocadinho a forma como as coisas vêm e vão na nossa história. Parecia certo que éramos os escolhidos um para o outro e que a nossa loucura era maravilhosamente encaixável. Aquilo tudo fazia muito sentido. E fez, por um bom tempo. Até que não fez mais.

Por quê? Qual a explicação para abrigarmos dentro da gente pessoas que estão fadadas a ir embora? Algumas vezes elas até partem sem que causem sofrimentos e dores agudos, mas deixam incompletos na gente alguns espaços que clamam para ser cheios. No mais insuportável dos barulhos, passamos a viver no silêncio.

Costumo acreditar que histórias que se rompem têm um dedinho do cara lá de cima afastando da gente o que não tornaria a nossa existência mais feliz, mas acho que, se tivesse a opção, escolheria não deixa-las passar por mim. Claro que, observando sob um ponto de vista menos dramático, todo mundo que marca a gente ajuda a construir o que nós somos. Mas, francamente? Eu topava o desafio de me erguer somente com aquele que chegasse pra ficar.

Guardei aquele vestido da mesma forma como venho guardando meu coração: repleto de lembranças, mas temendo usa-lo novamente. Não há receio de escrever novos capítulos, mas já não quero mais rasgar páginas.

2015_Bia

Bianca Carvalho
Últimos posts por Bianca Carvalho (exibir todos)

Bianca Carvalho

Uma carioca branquela, bagunceira e desbocada. Uma mulher questionadora, inquieta e expansiva. Uma amante do mundo, dos cachorros e de pessoas apaixonadas pela vida.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Voltar ao topo