LARGUEI TUDO, E AGORA?

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Leia ouvindo: Rita Lee, Zelia Duncan – Pagu

Marília: “É… Eu pedi demissão, porque agora eu quer…” (interrupção)
Muitos fulanos: “Vai casar?”
Marília: “Não, então… O que eu estava dizendo… É porque eu…” (interrupção)
Mais fulanos: “Nossa; mas tanta gente desempregado e você aí, com carreira promissora…”
Marília: “É, então, mas…” (interrupção)
Alguns mais fulanos: “Já seeeiii, espertina… Quer ter tempo pra engravidar! Nossa, mas porque não engravida empregada?”
Marília: “Não, não é isso, é que eu…” (interrupção)
Fulanos, fulanos, fulanos: “Aaah é! Seu namorado mora no Chile, né? Tá certinha! Se eu fosse mulher (ou: se eu tivesse um boy no Chile) faria a mesmíssima coisa!”
Marília: “Não, gente… Caramba! Será que eu posso falar? Depois de TODAS as minhas decepções, assédios (moral e sexual)  que o mundo corporativo me trouxe, depois de enfim ter entendido que desaprovo totalmente esse sistema, depois de muitos depois; eu entendi que eu vou me presentear com um tempo para pensar na minha própria vida! Vou para o Canadá e, após a minha decisão, meu namorado resolveu me acompanhar e ainda bem que a profissão dele permitiu” (ufa! me deixaram explicar… Acho que vão entender!)
Ainda os fulanos: “Aaah; entendi… Seu namorado foi transferido para o Canadá e você vai lá só aproveitar, hein?! É uma decisão familiar; então tá tudo bem!”

Já repararam como nós somos constantemente bombardeados de informações sobre o local ao qual pertencemos, nessa sociedade, e só nos damos conta (quando nos damos!) de que estamos alí em um lugar X, comum para todas as pessoas que são classificadas na mesma “tabela” que você?

Quer exemplo? O lugar do homem é sendo bem sucedido profissionalmente, o da mulher também; mas obviamente o sucesso profissional dele vem em primeiro lugar, afinal, ela tem outros requisitos de sucesso a preencher: ser uma boa esposa, boa dona de casa, boa mãe e, depois que virou mãe… “Vixe, perdeu o foco!” (bom vocês devem saber que essa frase, entre aspas, contém ironia, né?).

O lugar do branco, é onde ele quiser, o do negro também; mas preferencialmente se ele estiver numa posição subserviente, né? “Ai, credo! Ninguém pensa assim!”… Ah, não? Entendi, porque, pra mim, os lugares estão mais do que claramente bem colocados. Se 51% do meu país é negro, porque quase 100% das pessoas que me servem são negras e quase 100% das pessoas que lideram ao meu lado são brancas?

O lugar do heterossexual é tendo sua liberdade (isso se for homem… Mulher dá-se ao respeito!); o do homossexual também; desde que ele seja bem comportado, né? Fazer essas “sem vergonhices” em público, já é demais…

E por aí vai!

E de posição esperada em posição esperada, ali estava eu:

  • Primeiro: Ocupando uma posição de liderança executiva esperada pela minha cor e classe social, mas que eu sei lá de onde é que eu tirei que era ali que eu queria estar.
  • Segundo: Sendo compreendida pela sociedade por abandonar essa mesma tal carreira extremamente bem sucedida e promissora, aos 30 anos; afinal, “decisão familiar!”

A segunda me deixou brava. Confortável, mas brava!

Brava porque eu já estava brava com o Patriarcado, então mais uma, menos uma, pouco importava; ainda mais se tratando da opinião alheia, não me colocaram em uma posição que, efetivamente, diminuia minhas oportunidades… Eu nem sabia oportunidade de que eu tava querendo, naquela época, então, deixa que pensem!

Confortável porque, vai ser o primeiro exemplo nos meus textos pro Cotidiano, que trago um malefício do patriarcado ao homem (e são muitos, garanto!)… Mas eu estava confortável, porque eu “podia” não trabalhar.

As pessoas acham desperdício, acham um risco pras mulheres, mas elas estão muito mais preocupadas em comemorar um casamento que nunca existiu (ainda não!) e perguntar dos filhos que ainda sequer foram colocados em pauta.

Vi um colega de trabalho tomar a mesmíssima decisão que a minha e ser MUITO, MUITO, MUITO julgado… “Onde é que já se viu homem vagabundo? Que horror!”

Mas a primeira… Aaah, a primeira… Essa me causou desconforto, hein? Até comecei a falar sobre isso, no texto passado, mas deixei pra me aprofundar um pouco mais, aqui… ANOS no divã (antes de tomar a minha decisão) me sentindo responsável por alcançar o Olimpo Executivo uma vez que eu tinha infinitos privilégios (dentre eles, uma criação feminista disfarçada – que é tema para outro dia) e eu PRECISAVA mostrar pras outras mulheres que elas também podiam, meu exemplo motivaria e chegando lá, eu ia mudar essa “porra toda” (coitada!); acho que eu queria ser o Joaquim Barbosa das fêmeas… Sabe aquele único ser “fora da curva” que ali chegou? Então… Eu queria ser!

Só tem homem aqui? Eu vou ser a única mulher; vou mostrar que posso e, consequentemente, todas nós podemos!

Mas quer saber a parte triste? Isso não é real!

Fotografia: Marilia Archangelo

Poder, todos “podem”, não há uma lei federal/estadual que proíba o sucesso; algumas vezes há fuzis que te matam no caminho, em outras, há abuso moral, físico, psicológico, financeiro, blábláblá, mas em todas, há a “lei” invisível que é resumida no que venho falando aqui sempre: Excessões apenas reforçam que existe uma regra e essa lei, infelizmente, nem todos enxergam que exista; afinal: “Quem quer consegue”. “Entregue acima do esperado” e aí vai nossa saúde mental, pois estamos ocupados demais, entregando acima do esperado e nossa cegueira dos próprios privilégios, afinal, se não tá aqui, não se esforçou o bastante!

Eu não sei em qual momento meu desgaste falou mais alto que meu “dever”; eu realmente pensei sobre isso, pra enxergar o gatilho e, não sei. Não foi o salário; se fosse só isso, eu trocaria de empresa. Não sei em qual momento eu me dei conta de que tudo o que eu estava fazendo só estava alimentando um sistema com o qual eu discordava e que eu, simplesmente não queria chegar alí… Não sei, eu realmente não sei, mas vou pensar sobre isso. Rs!

Mas o que eu queria fazer? Vixe, meu Deus… Eu não sabia, também, naquela época!

Eu pedi demissão em agosto, prometi ficar até outubro e acabei ficando até dezembro. Todos me cobravam ocupar minha Primeira Posição imposta (a de líder, lembra?) e eu só não queria que elas continuassem pensando que eu estava trocando pela Segunda (a sombra de um homem), mas não ter uma lista gigantesca, com análise SWOT e PDCA (ferramentas técnicas de administração usadas para avaliar riscos, oportunidades, tomada de decisão e implementação de estratégias) de quais seriam meus próximos passos, só fez com que meu ego fosse afrontado ao ser colocado na Segunda Posição sem choro nem vela.

Nesses meses, eu não sabia responder sobre: “Mas e vai fazer o que?”; eu nem sabia o que eu queria fazer… Saber, eu sabia! Eu queria ir rezar com os monges tibetanos, passar uma altíssima temporada na Tailândia, Camboja, Myanmar, Índia, …

Mas e se nada desse certo? Ainda tinha a minha Primeira Posição alí pra ocupar e o Canadá me pareceu bastante seguro: aprendo mais uma língua (francês), aperfeiçoo o inglês, ainda de quebra faço uns cursos profissionalizantes em um país TOP e tá tudo bem… Foi assim que minha irmã me acalmou em uma das minhas crises pós demissão e pré partida: “Mas se você não sabe o que fazer, porque não escolhe as coisas que mais gosta e faz alguns cursos sobre elas?”

Tá tudo bem? Não tá tudo bem… Eu só pensava em ser vagabunda mesmo! Tá, ok, vai… Confesso! – Confesso agora que encontrei uma nova profissão, né?! Mas antes, era segredo de estado confiado somente à minha terapeuta; mas a vagabundagem não era um desejo, ela era um medo; quem sabe um pânico!

Estava todo mundo me perguntando o que eu ia fazer agora, estava tão estressada e só pensando que eu não queria fazer, é nada, e eu me questionava: “Meu Deus… Depois de TUDO o que eu estudei, depois de TUDO o que eu passei, sério que vou descobrir que sou só vagabunda? Que não quero produzir nada? Minha existência resume-se à vagabundagem?”

Em que momento eu decidi pagar pra ver e arriscar descobrir isso aí, outra coisa que não sei; são todas coisas que eu coloco na conta do subconsciente… Ele já deveria saber que esse período em branco (vulgo: vagabundagem merecida) ia passar!

Oh, vida… Oh céus… O que faço agora?

“Nada, minha filha… Você não faz nada!”

Paguei pra ver! E ufa… Eu não era vagabunda! (Não sou, né? Rs!)
(Nem eu, nem aquele meu amigo homem do sabático, lembra?)

Iiih, mas essa descoberta não é um texto que está próximo não, fica calma aí!

Marília Archangelo

Apaixonada por viajar e pela natureza, trago na mala as experiências que me fazem ser quem eu sou e o entusiasmo, quase que um desassossego pelos olhares que ainda me transformarão em tudo o que eu vim para ser. Qual é o próximo destino?

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