Leitura da Onça | Nu, de botas

Leia ouvindo: Milton Nascimento – Fazenda

Feche seus olhos e tente se lembrar da sua infância. O que te vem à cabeça? Suas festas de aniversário, os brinquedos que você jurava brincar pra sempre, aquela tia que você não lembra o nome até hoje?

Esses dias eu fiz essa viagem no túnel do tempo na companhia do Antonio Prata, em “Nu, de Botas” (Companhia das Letras), e me lembrei de tanta coisa. Lembrei que eu achava que o cantor estava “dentro do rádio” enquanto tocava o CD, e aí tinha dó de repetir a música, porque achava que o cantor ia ficar cansado (!). Algumas vezes, eu chamava minha mãe no quarto e fingia estar dormindo, só pra ela ver que eu estava em um sono tranquilo. Senti saudade da casinha de madeira que eu vivi por pouquíssimo tempo, mas que queria muito de volta. Das vezes que eu brincava de rabiscar o asfalto com um pedaço de tijolo da construção ao lado. Do meu melhor amigo que, 23 anos depois, continua sendo o meu melhor amigo. Das bolachas de nata da minha avó e das vezes que ela separava um pouco da massa do pão para eu amassar e fazer meu próprio pão. Das brigas ridiculamente escandalosas com a minha irmã, mas que em 5 minutos tinha a paz restabelecida. Me lembrei das vezes que aprontei, rabisquei parede, me recusei a andar de Fusca (e não é que hoje eu ia adorar ter um?), fiz birra – tem até uma gravada no VHS para não deixar dúvidas – e fui rebelde sem causa. Tudo que faz parte do que sou hoje.

No livro, Antonio Prata narra em crônicas passagens da sua infância. Seus questionamentos e seus raciocínios lógicos de criança que fazem sentido no mundo adulto de hoje. Afinal, para que servem, de fato, as cuecas? Poderia você ficar escondido em um lugar seguro para todo o sempre fugindo da bronca da sua mãe?

[ Imagem: reprodução ] 

Coloque isso no contexto que você vive: quantas coisas você faz, usa ou fala sem que te dessem uma explicação realmente convincente sobre o porquê de ser assim, como é o caso da cueca? Ou quantas vezes uma atitude que você tomou te envergonhou tanto a ponto de querer cavar o famoso buraco na terra e ficar lá por mais de mil anos?

Fiquei pensando nisso… Nos paralelos que podemos fazer entre aquela criança que fomos e aquela que somos hoje. Sim, crianças que ainda sentem medo, têm dúvidas, imaginam enredos épicos para explicar situações corriqueiras e que todo dia aprendem um pouco mais. E daquela criança, o que guardamos e o que abandonamos?

A nostalgia percorreu a leitura. E as risadas também. A linguagem mais “rebuscada” para contar os pensamentos de uma criança arranca gargalhadas. E no meio de memórias (dele e das minhas), fui percebendo que é bom se lembrar de enxergar o mundo pela ótica de uma criança. Descomplica o que se tornou complicado com o tempo;  traz à tona aquela parte boa da inocência; se resgatam traços mais doces que se perderam com a idade; e se entende que certas atitudes sempre foram e sempre serão suas. Leia e aproveite para (re)descobrir um “você” que, talvez, achou que tinha ficado lá atrás.

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