Manual de instruções: sobre amar

Leia ouvindo: Owen Danoff – She’s always a woman

É difícil aprender a se relacionar. Dizem que você está errando, que está excedendo, que está pecando. Você pega aqueles comportamentos e vira de cabeça pra baixo, tira tudo do lugar e começa do zero. Adota novas táticas, toma iniciativas, às vezes se resguarda, vez ou outra se entrega… Nada, nadinha parece funcionar.

Existe fórmula mais concreta que nos ensine a parar de errar? Seres humanos são complexos e diferentes, carregam bagagens que os torna específicos demais. Sem manual de instrução fica praticamente impossível decifrar o que é certo pra um, o que é equívoco pra outro. Ainda que por um período a descoberta seja excitante, no fim das contas é cansativo gastar energia tentando decifrar a coisa certa a se fazer e constatar que, mais uma vez, deu tudo errado.

Fala-se muito em boicote – não sei vocês, mas já ouvi um bocado a expressão. Levanta-se a hipótese de que nós mesmos queremos que dê errado, de que gostamos de nos vitimizar pelas perdas colecionadas. Será possível que o ser humano carregue sentimentos tão ambíguos dentro de si? Parece-me inconcebível a ideia de que alguém que quer um amor para segurar sua mão tenha tanto empenho em ferrar seus próprios objetivos. A psicologia explica?

Bia

[ Imagem: reprodução ]

Entenda, não é que não sejamos felizes em carreira solo. Ter liberdade é uma delícia! E não quero ser pudica: catalogar inúmeros beijos em bocas desconhecidas já teve um gostinho de padecer no paraíso. Se você for como eu, guarda dentro de si uma doce euforia pela aventura. Mas também guardo, dentro de mim, um leve rancor de quem cisma que querer estar em par é anular totalmente o deleite de ser ímpar. Ainda que eu acredite que fundamental é mesmo o amor, eu continuo crendo que é possível, sim, ser feliz sozinho.

Acontece que a gente também quer ser amado, caramba! Quer dormir de conchinha, tomar café da manhã junto, se declarar em palavras, em atos. A gente quer começar a fazer amor e parar de somente transar. Ter o pensamento fixo em gente que também fixa o pensamento na gente, trocar bares e baladas por mãos entrelaçadas no sofá. Dedicar aquela música que é cafona pra caramba mas que descreve em letras perfeitas o seu amar. É errado demais desejar isso?

Desacreditar da existência de alguém para si mesmo é consequência de uma avalanche de porradas tomadas por sentimentos mal sucedidos. Continuar na busca, mesmo assim, é virtude de quem acredita que viver é cair de barrancos, mas escalar a montanha novamente. Isso não significa que se viva desesperado olhando para os lados, mas que, provavelmente, vamos continuar dando chances aos erros até que acertemos.

Bianca Carvalho
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Bianca Carvalho

Uma carioca branquela, bagunceira e desbocada. Uma mulher questionadora, inquieta e expansiva. Uma amante do mundo, dos cachorros e de pessoas apaixonadas pela vida.

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