Mas eu nem sei o seu nome

Leia ouvindo: Nouvelle Vague – Dance With Me

A reunião tinha sido ótima. Sair da editora com um elogio da diretoria e com cliente de contrato assinado era para poucos, principalmente em tempos que todo mundo fala em crise. Estava em êxtase! Mesmo saindo de lá tarde da noite, foi um dia louvável!

Era um daqueles dias que a gente quer sair pulando de alegria, mas só precisa chamar o elevador e esperar até entrar no carro para ai sim, dar aqueles gritinhos de felicidade. No modo automático e distraída que só, buscava a chave do carro mais uma vez perdida na minha bolsa, entrei no elevador.

– Droga! Não achei a chave. Desabafei eu, justamente quando o elevador abriu a porta no 11. E é nessas horas de plena loucura e irritação que a vida vem, te esfrega um pano de chão na cara e solta um: PARABÉNS pelo desastre, juntamente com a entrada triunfal de um charmoso cara de uns trinta e poucos anos.

– Boa noite…

Continuo sem achar a chave, mas me sentindo observada em cada detalhe pelo tal moço.

– Achei!

Ele riu.

Porra, tinha que ter falado alto? Dentro de um elevador? Sou dessas que dá bronca na própria consciência. A Rainha do desastre estava com uma coroa de brilhantes hoje. Enfim.

– Bolsa de mulher tem de tudo, até lugar para esconder a chave do carro. Respondi aos risos de forma natural e sorriso amarelo. E olhei para seus detalhes, que incluía um óculos de grau e barba por fazer.

Barba

[ Imagem: reprodução ] 

A eternidade apareceu sem ser chamada. Ficamos nos olhando no elevado até chegar na garagem. Foi quando a eternidade teve fim. Nos olhamos na saída do elevador. Olhamos juntos para trás. Rimos depois. Em silêncio, seguimos em direção oposta, cada um para o seu carro.

Com o coração disparado de um amor que não aconteceu, mais foi correspondido. Entrei no meu carro, liguei o som e segui pelo caminho indicado. Simplesmente seguir.

Eu nem sei o seu nome, se realmente trabalha no prédio da editora, qual profissão ou onde mora. Talvez ele tenha uma namorada, talvez não. Talvez vá encontrar amigos saindo de lá, talvez não. Talvez só queira ir para casa e descansar depois de um dia de trabalho, talvez não. Talvez ele esteja pensando em mim. Talvez não.

Acordamos e vamos dormir com aquele talvez do dia entalado na garganta. Talvez sim, talvez não. Se tem uma coisa que a vida te dá é opção de escolha. Pode sim ser muito diferente do que você imagina. Talvez, puxando um assunto qualquer eu poderia ter conhecido o cara da minha vida no elevador. Talvez não. Escolhi entrar no carro e seguir por outro caminho, o de casa. No trajeto avaliei meus tantos “talvez” engasgados. E cheguei a conclusão que entre tantos deles, eu senti aquilo que permiti.

Nesse dia entendi a intensidade daqueles minutos parecem eternos. Foi um bom dia. Ganhei um cliente novo e um sorriso, misturado a meia dúzia de palavras de um desconhecido com barba a fazer um óculo de grau charmoso.

É vida mostrando que no cotidiano existe poesia.

2015_Ju

Juliana Manzato
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Juliana Manzato

Apaixonada por amor, cachorros, textos e coisas inspiradoras. Adora fotografia, mar, sol, doce de padaria, verão e olhar o céu azul. Esportista. Feminista. 80 porcentista. Irônica eu? Imagina.

3 comentários em “Mas eu nem sei o seu nome

  1. Hahaha… Boaa! Por que a vida é assim, talvez você encontre com o amor da sua vida no percurso errado que você fez para o trabalho, talvez não. Kkkkkkkk.

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