Mesa de Bar 2 | por Rubens Gualdieri

De onde veio Ana? Daqui.

O celular não tocava, nenhuma mensagem chegava. O único simulacro de carinho que recebia naquele momento, era o do lenço de papel que tentava – em vão – limpar o fio preto de maquiagem que escorria dos olhos.

A música alta e brega impediu que ela escutasse de primeira, a voz que a chamava:
Ana? Sabia que a encontraria aqui.

Ana olhou pra cima, mais forçando o globo ocular do que propriamente levantando a cabeça, e viu claramente o perfil de uma mulher elegante. Um belo contorno, aliás. Quem visse, certamente palpitaria que ela já teria sido miss alguma coisa. As roupas de grife atestavam sua origem, o cabelo, com um corte moderno e impecável, não deixavam sombra de dúvida que ali estava uma pessoa que sabia o que queria e tinha recursos para isso.
A realeza desceu à plebe. Seja bem vinda.

Adoraria me sentir bem vinda minha querida, mas… nesse lugar? Poupe-me.

Ah, esqueci que meus gostos não são tão refinados quanto os seus. Às vezes me iludo que por sermos iguais, possamos agir iguais.

Uma gargalhada jocosa quase encobre a música alta e brega.

Iguais? Não faça isso com você mesma, querida. No máximo, parecidas.
Ana olhava firme para a mulher à sua frente, procurando manter os últimos pingos de dignidade que ainda lhe restavam.

É que não tive a sua sorte.

Sorte não tem nada a ver com isso. São as escolhas do passado que definem nosso futuro.

E devo supor que suas escolhas foram melhores que as minhas?

Não suponha, encare. E você? Vejo que apesar de ter as mesmas escolhas que tive, continua a mesma simplória de sempre. Embora muitos tenham tentado tirar você da pobreza, não conseguiram tirar a pobreza de você.

Outro risco preto descia dos olhos. Silêncio. Até a música alta e brega parou nesse momento. Uma pausa para que um turbilhão de lembranças voltassem com uma clareza impressionante. Um lampejo vem à mente: melhor seria estar morta.

Nessa pausa, um homem alto, magro, sobretudo negro se aproxima da mesa. Ana olha para a interlocutora à sua frente, que continua impassível, parecendo nem perceber a presença do estranho. O homem de sobretudo negro deixa um copo de whisky na mesa e passa as mãos – geladas – pelos cabelos de Ana. Apenas três palavras saem da sua boca: hoje não, Ana!
O homem de negro se esvai, com a mesma rapidez que apareceu.

Ana, como acordada de um transe, volta a olhar para sua companhia, que permanecia impassível.

Ana resolve quebrar o silêncio, no mesmo momento que a música alta e brega invade novamente o ambiente.

Eu não tive a chance de um grande amor.

Novamente a risada jocosa invadiu o ambiente. Lógico que teve querida. Você não deu chance ao amor. Preferiu desperdiçar seu tempo com quem não valia a pena. Homens casados, homens indecisos, homens inseguros, homens canalhas, homens bêbados, homens indiferentes. O amor veio, sim, à sua porta. Mas você pediu que homens ocupados com seus egos atendessem à porta.

Mas como eu poderia saber?

Escolhas minha cara, escolhas. Você preferiu trocar a efemeridade de um tempo pela certeza de um futuro.

Você está sendo injusta… Eu procurei o amor. Eu fui atrás do amor.

Onde? Em boates? Em bares? Nas noites longas e frias, com quem não tem estrutura para se sustentar, quanto mais apoiar alguém? Procurou no lugar errado meu bem.

Mas você só pensa no material.

Opa, opa, opa. Quando digo alguém que se sustente, é alguém que se sustente como indivíduo. Que tenha equilíbrio, bom humor, caráter, discernimento. Ninguém dá aquilo que não possui. E se dá, é porque roubou de outro. Adivinhe quem foi roubada? E novamente a risada jocosa invadiu o ambiente.

Ana, no auge da sua raiva joga o copo na sua companhia, quebrando o espelho. Amanhecia, a luz de fora começava a invadir o ambiente com música brega e alta.

A luz permitia ver, naquele jogo de espelhos, duas belas mulheres. Uma, maltratada pela vida, outra, deformada pelo vidro quebrado. Mas ainda, assim, duas belas mulheres, tão iguais e tão diferentes. 

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Um comentário em “Mesa de Bar 2 | por Rubens Gualdieri

  1. Ainda fico arrepiada quando leio: “Hoje não, Ana” e sei que será assim, quantas vezes eu ler esse texto.

    Sensacional, como sempre.

    Fly Away

    Aninha Ruiz.

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