Mesa de Bar | por Rubens Gualdieri

Subúrbio, música alta e brega disputando a atenção dos frequentadores, ambiente, meia luz ou meia escuridão, tanto faz, pois destaca uma mulher procurando o chão pra pisar. Nem bonita, nem feia, não era de se jogar fora, embora a roupa daquela noite estivesse visivelmente esquisita. Muitos palpitavam que já tinha sido miss alguma coisa, em alguma época da vida.
Jair, por que é que tu não reservou minha mesa?
Ana, tá cheio de mesa vazia na casa, senta em qualquer uma, mulher.
Jair, seu pedaço de jumento, tu sabe que eu preciso daquela mesa.
Ó, fica no balcão, que já-já ela desocupa, pode ser?
Depende do que você vai me dar…
Pelo visto você não precisa de mais nada. Quer beber o quê?
Vodka. Vodka com energético. É a moda agora. Copo cheio. Cheio não, duplo. Não, traz a garrafa, umas três latas. E gelo, tem que ter gelo.
Quer me ensinar o ofício?
A resposta veio em forma de um olhar frio, penetrante e calculado. Jair, macaco velho de profissão, já sabia como lidar com a situação. Ignorou e deu de costas.
Jair, seu merda. Cadê minha vodka? Vodka com energético – biquinho ao final da sílaba, que deixava no ar uma certa ironia, um misto de esnobe e blasé com o pedido. É a moda agora… e – ner – gé – ti – co… repetindo pra si mesma, com o tom esnobe.
Ana, vai devagar… – olhando de lado pra ver se a mesa desocupara. O que seria muito bom, assim, Ana sairia do balcão e passaria a ser problema de outro garçom.
Devagar se chega a lugar algum, meu querido. Eu quero é viver. Viver o quanto possa, o quanto eu consiga, o quanto eu aguente. Devagar eu vivi até hoje, boa aluna, boa filha, boa esposa. Só não me dei bem como boa amante. E ninguém nunca pediu que fosse boa amiga. E também acho que fracassei como boa mãe.
Silêncio, só a música alta e brega estava entre os dois agora. A música alta e brega e um certo ar de constrangimento com a declaração.
Olha Ana, não fala assim… Aqui você sabe que tem amigos.
Amigo é dinheiro no bolso. Amigo, nem os dentes, aprenda isso. Nem os dentes porque eles doem. Amigo sou eu e eu mesma.
Mais uma olhada na mesa e alívio.
Olha lá, sua mesa está lhe esperando.
Esforço pra descer da banqueta, ajusta o vestido, pega a bolsa, equilibra o copo, tenta pegar de uma única mão a vodka, as latinhas e o gelo. Quase tudo ao chão, se não fossem as mãos rápidas – e experientes – do garçom mais velho da casa.
Dona Ana, a senhora quer que eu a ajude?
Dona é sua mãe. Eu tenho cara de que sou sua mãe?
Não senhora, não quis dizer isso.
Então não me chame de senhora. Sou velha agora, por acaso?
Não, nada disso – mas seu olhar contradizia, esmiuçando os traços já delineados com a idade e a experiência.
Muito esforço, barulho, empurra a cadeira, empurra a mesa, desequilibra, cai, levanta, um palavrão, senta. Finalmente. Era a sua mesa. Ali, era onde ela tinha boas e longas conversas. Ali ela desabafava, deixava um pouco do fardo da vida espalhado pelo chão. Era ali que escutava conselhos e também era ali que os ignorava. A sua mesa. Em um canto, nem muito à vista, nem muito recuada. Por ficar em um canto, abrigava dois espelhos fazendo esquina no pilar, o que dava a impressão de ser um local maior do que realmente era. Mas para Ana era estratégica: a luz ficava por trás, de maneira que ela via quem se aproximava, mas dela só se via o contorno. Aliás, um belo contorno, inclusive, muitos palpitavam que já tinha sido miss alguma coisa, em alguma época da vida.

E ali ela via o movimento, se divertia com os poucos que ousavam se aproximar da mesa e escutava a música alta e brega. Em uma mão, o copo de vodka com energético, na outra um celular que se recusava a tocar ou trazer qualquer mensagem que fosse. E assim, a música alta e brega lhe fazia companhia, enquanto jogava o celular na bolsa para poder passar um lenço naquele fio preto de maquiagem que começava a escorrer dos olhos.

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