Momento : Fofura

“Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir é rir sem fazer ruído e executando contracção muscular da boca e dos olhos.
O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no acto de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida. Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem. Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exactamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.
Não há dois sorrisos iguais. Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso.
O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso.”

Grande José Saramago!

Um grande sorriso para vocês!!! =)

Juliana Manzato

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admin

6 comentários em “Momento : Fofura

  1. Oi…
    Gosto de ler coisas alegres, que limpam a alma e deixam o dia-a-dia mais leve. Ainda mais quando vêm de Saramago, um escritor declarado não tão sorridente, mas, se até ele se rendeu ao sorriso, quem somos nós pra não fazê-lo? Já disseram que quando falarmos ao telefone, façamos sorrindo, pois quem está do outro lado perceberá… E é verdade. A voz fica mais leve, mais adocicada. Tira o peso das palavras (essas coisas frias, retas, sem brilho) e deixa a fala musicada. Um rosto que sorri é mais bonito, mais sincero. Mas não nos enganemos com risos cínicos, pois estes são amarelos, sem graça e saem de canto da boca. Deixa ridículo quem o dá e com raiva quem o recebe.
    Mas o que é que eu estava falando mesmo? Ah, que é bom sorrir, que é fácil sorrir. Até no computador é fácil. Com um parênteses (que é cheio de pompa e explicativo) e dois pontos (que é o “pare que eu vou falar” da escrita) fazemos um sorriso. Então, se até com caracteres inanimados, em um ambiente gélido – a tecnologia – damos sorrisos, por que nos seguramos tanto para dá-lo pessoalmente? Custa? Acho que não : )

  2. Aline,

    Sou uma amante de fotos, e essa vamos combinar que está além de fofa linda!!! Existe coisa mais sincera que risada de criança? Acho que não né?!

    Obrigada pelo comentário…

    Beijos

    Ju

  3. Sabe… às vezes percebo que ao sorrir pra idosos ou crianças na rua me sinto mais leve, sinto como se estivesse fazendo um bem para aquela pessoa.Em um mundo onde o individualismo impera faz um bem danado quando se sorri para o mundo …um sorisso muitas vezes coagi e deixa os estressados e amargos constrangidos !
    Lindo o texto Ju, Saramago é vida !

  4. Gabi,

    É bem isso, sempre tento sorrir para as pessoas, acredito que fazer isso ajuda num tiquinho a fazer um mundo melhor!!
    Saramago é vida e ídolo!

    Obrigada pelo comentário!!!

    Beijos

    Ju

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