Morando sozinha | Dormindo sozinha

Leia ouvindo: Anya Marina – Whatever you like

Era começo de 2006 quando me vi sozinha num apartamento de 42 metros quadrados. Minha cama não tinha chego da loja, o que me confortava era um velho colchão na sala e um edredom antigo, vindo da casa dos meus pais. A sensação era de liberdade e medo. Decidi por um apartamento em frente a uma movimentada avenida, custei a dormir. Veja bem, sai do meio do mato e caí numa cidade de 1 milhão e meio de habitantes. Fria, chata e arisca.

Com muita dificuldade peguei no sono e acordei com a claridade da janela no meu rosto, era cedo, mas eu já precisava correr para trabalhar e depois tinha a faculdade, os compromissos. Mal sabia o que estava por vir. A primeira noite foi tranquila, para a felicidade da minha mãe e sossego da minha avó. O problema era uma menina de 17 anos “solta” em uma cidade grande. Hoje, olhando para trás, confesso que me dá calafrios e me orgulho de tamanha coragem. Não foram todos os meus colegas de colégio que fizeram isso. Queria eu voltar a ter tanto peito de enfrentar a vida dessa maneira.

Os dias foram passando e a solidão apertando. Era muito difícil não sentir saudade de casa, da mesa do almoço me esperando, lavar a louça da pia apenas no jantar, levar a roupa suja para casa nos finais de semana para lavar, brincar com os meus cachorros, dormir ouvindo o barulho do vento da janela e não do ônibus na avenida. Não precisei de muito para valorizar aquele pouco que eu já tinha.

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[ Imagem: reprodução ] 

Era na hora de dormir que a solidão me pegava. Campinas não é uma cidade tão amigável assim. Demorei pelo menos 1 ano para fazer amizades com pessoas que eu realmente poderia contar. Quando a solidão batia, eu apanhava. Obvio que tinha a parte bacana das festas, bebedeiras, companheiros de balada e todo aquele alvoroço que toma conta da vida da gente até o TCC. Mas era à noite, dormindo e acordando sozinha, que eu aprendi sobre pessoas e o valor das lágrimas.

Perdia o sono fácil, a luz do corredor ficava sempre acessa, a tv às vezes virava a noite ligada, perdi as contas de quantas músicas embalaram meu sono e quantas lágrimas rolaram na madrugada. Me lembro como se fosse hoje das noites em claro, da sensação de realmente estar sozinha no mundo, de não ter café da manhã na mesa, o boa noite da minha mãe e a “bença” da minha avó.

Hoje, completamente adaptada, não perco mais o sono por conta do cansaço, a luz do corredor continua acessa, a tv mal é ligada pela falta de tempo, não ouço mais música como antes e as lágrimas por vezes insistem em cair na madrugada. Depois de um tempo, a gente percebe que somos mais fortes do que imaginamos, mais tolerantes do que precisaríamos e por fim, mais solitários do que o necessário. Digo isso com a certeza de quem se adaptou tanto a dormir sozinha que o corpo na hora do descanso até na diagonal fica, para garantir logo mais espaço. Para muitos, além de egoísta, espaçosa. Coisas que só quem mora sozinha vai entender.

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Juliana Manzato
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Juliana Manzato

Apaixonada por amor, cachorros, textos e coisas inspiradoras. Adora fotografia, mar, sol, doce de padaria, verão e olhar o céu azul. Esportista. Feminista. 80 porcentista. Irônica eu? Imagina.

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