MOVIMENTE-SE | LOUCA

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Leia ouvindo: Baco Exu do Blues – Imortais e Fatais

“Se demonstramos emoções somos chamadas de dramáticas. Se sonhamos com oportunidades iguais estamos delirando. Quando somos boas demais há “algo de errado com a gente”. Se ficamos bravas somos histéricas, irracionais ou estamos ficando loucas, mas… uma mulher correndo uma maratona foi considerada louca. Uma mulher lutando boxe foi considerada louca. Um mulher enterrando uma sexta, sendo técnica de um time da NBA, competindo com um hijab ou vencendo 23 grand Slams, tendo um bebê e depois voltar às competições para mais conquistas? Louca, louca, louca, louca e louca. Se eles quiserem me chamar de louca, tudo bem. Mostre o que a louca pode fazer. Só é loucura até que você o faça.”

Quando eu tinha uns 14 anos, em uma das conversas com a minha mãe, ela me disse que para ser mulher era preciso coragem. Resistir fazia parte e que mesmo em cacos, era necessário continuar. Cresci ouvindo da minha avó que, “mulher sofre, mas é muito mais forte“. Lá em casa, resistência é sobrenome.

Uma boa parte da minha vida passei sendo chamada de louca, geniosa, teimosa, difícil e muito questionadora. Passei anos tentando me adequar para ser aceita em grupos e lugares hostis. Entendi depois de muito me quebrar, que ali não era lugar para mim.

Demorei anos para entender que não eram os outros, era eu.

Enquanto eu não mudasse a relação comigo mesma nada mais iria mudar. E nessa hora ai, a gente não entende muito bem, mas começa o nosso processo de empoderamento. Você pode, garota! Você pode assumir o cabelo ondulado e volumoso. Você pode usar a roupa que quiser. Você pode falar palavrão. Você pode sentir raiva. Você pode praticar esporte. Você não precisa se comportar como uma garota. Você não precisa de uma bolsa de grife. Você não precisa da aprovação daquelas pessoas. Você só precisa ter clareza sobre suas escolhas. Ir contra a corrente dói, mas quando você descobre o poder que tem, a dor desaparece.

Ouvi, também aos 14 anos, de uma colega da escola que eu deveria procurar a minha turma. Procurei de maneira incansável a minha “turma”. Aceitei ser maltratada, cheguei a brigar com a minha família para entender que a “turma” nunca vai me aceitar, se eu mesma não fizer isso.

O empoderamento trouxe luz para as minhas sombras. A loucura é uma linha tênue. Misturei loucura com coragem e fui além. Descobri que todo mundo é um pouco genioso, teimoso e “difícil”. Ser questionadora me trouxe até aqui, num lugar que nem sempre é o meu de fala, mas que com ajuda de outras pessoas que também não são tão “adequadas” ao – já – falido sistema, faço outras mulheres despertarem para o verdadeiro lugar delas.

O lugar onde tudo parece loucura, até que você vai lá e faz.

O lugar de resistência ao patriarcado.

O lugar onde ela pode ser o que quiser.

O lugar onde mulheres olham uma pelas outras, não uma julgando a outra.

O lugar onde toda mulher já foi chamada de louca pelo menos uma vez na vida.

Juliana Manzato

Apaixonada por amor, cachorros, textos e coisas inspiradoras. Adora fotografia, mar, sol, doce de padaria, verão e olhar o céu azul. Esportista. Feminista. 80 porcentista. Irônica eu? Imagina.
Juliana Manzato

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