Mulheres e Bruxas: como não acreditar nas duas?

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Aquele dia 31 prometia. Estagiária nova no trabalho – uma bem acertada mistura de um quê de ninfeta com ares de mulher – somada a uma bela cantada e um despiste na namorada. Aquela noite seria de gostosuras e travessuras.


Amor, não poderei passar aí hoje (…) É uma pena mesmo, terei duas reuniões com clientes importantes para a empresa (…) eu sei amor, eu sei que tínhamos combinado um jantarzinho à noite (…) não, não vou ficar preso até muito tarde (…) pare com isso, ninguém vai me roubar de você (…) ta bom, ta bom, você sabe que eu iria atrás de você nem que fosse a pé, na chuva e sem roupa, correndo pra te ver!


Telefone desligado, terminar a agenda do dia e aí… gostosuras e muitas travessuras, afinal, naquele dia das bruxas, sair um pouco da linha era um pensamento até que razoável.

E assim foi: seis da tarde, desligou o celular, desceu até o estacionamento e ficou esperando dentro do carro. Não demorou muito, a estagiária apareceu. Sorriso de menina, rebolada de mulher. Entrou no carro, um “oi” simpático para selar a cumplicidade e trataram de sair dali o mais rápido possível.


Um restaurante, pequeno, nada muito sofisticado, mas com um aconchego que induzia à aproximação. Espumante, duas taças, um belisquinho e muita conversa picante e excitante jogada fora. Mataram a garrafa, um último gole rápido e saíram daquela gostosura para as travessuras.


Um manobrista com cara de louco trouxe o carro. Estranho um local bacana como aquele ter contratado um manobrista com cara de noiado, mas, até aí, poderia muito bem ser o efeito do espumante. Começava a cair uma garoa fria e o que interessava, era sair rapidinho dali para um local mais quente. Em todos os sentidos. Engraçado que ele não tinha notado o tanque vazio, mas a luz laranja não mentia. Estranho mesmo, pois nunca deixava o tanque abaixo da metade. Uma passada rápida no posto resolveria isso antes que ele terminasse de soletrar H A L L O W E E N! O frentista nem tinha mexido na tampa do tanque, quando apareceu, como magia, dois assaltantes. Queriam grana, mas em tempo que postos trabalham com cartões, no caixa só tinha uma quirela mais um bolo de comprovantes. Viram aquele carrão, com o casal dando sopa, não pensaram duas vezes: foram pro banco de trás e, com armas em punho, fizeram ele arrancar dali rapidinho. Tensão ao máximo, medo, adrenalina escorrendo pelo nariz, atravessou um cruzamento, dois, três e pó, pó, pó, pó, pó… acabou a gasolina. Os bandidos ficaram furiosos, mas ele teve presença de espírito pra conseguir convencê-los que ele estava em um posto de gasolina para justamente, colocar gasolina! Saíram dali rapidinho, não sem antes dar um belo chute na porta do carrão novo, preto, importado e caro.

Segundos se passaram até que o casal assustado, pudesse se recompor. A menina, agora com cara muito mais de menina do que de mulher, só queria ir embora. Ele, após o susto, só pensava que sua gostosura se transformara numa bela travessura. Irônico.

Um carro para ao lado, um garotão novo, boa pinta, chama a estagiária pelo nome. Pronto, só faltava essa… um ex namoradinho materializar pra acabar de azedar a noite. Ela nem pensou duas vezes, trocou de carro e os dois foram embora daquela situação inusitada.


Ele ficou com aquele pensamento… tá, e agora? Concentrado nos seus pensamentos e no que uma noite promissora tinha se transformado, nem notou a chegada de uma viatura. Dois policiais desceram e pediram para ele se identificar. Rapidamente ele foi procurar sua carteira e… surpresa! Não estava lá. Teria deixado no posto? Os ladrões levaram? Esquecera no restaurante? Não conseguia se concentrar… Tudo o que ele dizia eram frases desconexas “fui roubado”, “não tenho documentos”, “ladrões”, “ela foi embora com o ex namorado”. Os policiais apontaram uma lanterna para dentro do carro e viram um pacotinho no assoalho. Conferiram uma bela porção de cocaína. Como aquilo foi parar ali? Ele lembrou no manobrista noiado. Só podia ser ele. Discutiram, ele argumentou… não teve jeito. Ele ia ser levado pra delegacia. Como aquela noite podia ficar pior? Pessoas começaram a aglomerar, a chuva começou a apertar. Ele estava sem blazer – tinha sido revistado – o frio apertava.
De repente, uma ideia. Idiota é verdade, mas ainda assim, uma ideia. Fugir. Os policiais estavam empenhados em fazer o trânsito fluir, a chuva piorava, as pessoas aglomeravam e ele estava sozinho perto da viatura.Começou a afastar, saiu de fininho, se misturou na multidão e tchau. Correu, correu, correu e correu. Só pensava que, com documentos nas mãos e com um bom advogado ao lado, seria mais fácil explicar aquela situação do que na atual conjuntura. E enquanto corria, sua camisa encharcada ia grudando no corpo e atrapalhando a corrida. Ele tirou a camisa e correu mais e mais. E seus sapatos cheios de água começaram a sair dos pés. Não pensou duas vezes, largou os sapatos, meias e correu descalço. Mas correr pra onde? Sua casa era em um condomínio afastado da cidade. Sua namorada, ah, sua namorada. Ela morava a poucos quarteirões dali.


E lá foi ele, atrás da namorada, a pé, na chuva, sem roupa, correndo só pra vê-la. Após ser roubado e ficar preso até muito tarde.


Coincidências? Não creio. Acho que toda mulher, absolutamente toda mulher, tem um pouquinho de bruxa dentro dela.
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2 Comments

  1. @AninhaRuiz says

    Rubão! Acredita se eu falar que não tenho uma opinião formada sobre o destino do seu texto?

  2. Rubens Gualdieri says

    Oi Aninha, eu acredito!!! Mas repare que o que mulher fala, é escrito em algum lugar :/

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