Mulheres e seus fardos | por Rubens Gualdieri

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Dia da Mulher… sempre fico dividido nessa data.

Dividido entre não parabenizar e daí, passar em branco uma oportunidade tão gostosa de cumprimentar as mulheres maravilhosas que estão ao redor, ou então, cumprimentar e legitimar que as mulheres precisam, sim, de um dia para serem lembradas como especiais.

Desde que o mundo é mundo, as mulheres já nasceram com um fardo amarrado às costas. Sim, desde que o mundo é mundo…

Analisando biologicamente, a função da mulher é tão somente e apenas, a de procriar e perpetuar a espécie.
Diversos trogloditas contemporâneos – leia-se homem moderno – fazem ares de intelectuais e despejam asneiras como: isso é biológico, as mulheres foram feitas pra cuidar da prole, proteger o abrigo. Cabe ao homem – o provedor – sair à caça, passar frio, calor, sofrer ameaças do ambiente, para então, voltar com a caça (ou a colheita, depende de qual época estamos falando) para sustentar mulheres e crias. Mulheres, vocês deviam se orgulhar por existirem homens dispostos a sair na selva (seja de mato, pedra ou vidros, depende de qual época estamos falando) para trazer o alimento vosso de cada dia.

Analisando pelo viés da religião, aí sim é que a mulher está lascada (pra não colocar em termos piores).
Vamos lá? Nasceu da costela de um… homem. Até pra nascer a mulher dependeu do homem. Um pouquinho mais à frente, inocentemente caiu na lábia de uma serpente (?) que disse pra ela comer o fruto proibido e então ter o conhecimento do que era bom e mau. As cenas seguintes, são trágicas, se não fossem cômicas: Eva come o tal fruto e também o dá à Adão (culpada).
O Criador chama Adão (lógico, ele em precedência) e pergunta se ele comeu do tal fruto. Adão, o primeiro vaselinão da Terra, imediatamente joga a bucha pra cima de Eva – a mulher (culpada).
Aí, o Criador amaldiçoa a mulher (culpada), diz que por todo o sempre a serpente há de procurar o seu calcanhar para morder (picar, envenenar, o que seja…) e diz que aumentará a sua dor na hora do parto (culpada). Além disso, a partir dali, a mulher devia obediência ao homem, que seria o seu dominador.
Os livros seguintes não ajudam muito a mulher… virgindade como ícone de pureza, servidão ao marido, esposa dedicada e fiel e por aí vai.

Mas e aí? Independente da trajetória da mulher pelas vias de Darwin ou pelas vias de Deus, qual o seu papel na sociedade atual?

Ficarem divididas entre mãe e profissional? Carregarem sozinhas a culpa por deixarem os filhos na escolinha no momento de ir trabalhar?
Por que não dividir essa culpa com o pai? Ou por acaso, a mulher sofreu fecundação espontânea?

Pra mim, a mulher não deve ser heroína por ser mãe. Aliás, não gosto de heróis. Heróis, invariavelmente são mártires e mártires, invariavelmente morrem. O fato e peso de ser mãe, deve ser partilhado com o pai. Não entendo essa convenção de que a mãe é quem deve se desdobrar para dar conta de sêxtuplas jornadas.

Se formos analisar friamente, o homem atual ainda é o mesmo vaselinão que foi Adão: Foi ela. A culpa é dela. Afinal, a mãe é ela.


Ou, caminhando no outro viés – o preferido por idiotas de plantão – vemos a releitura das cavernas: no lugar de buracos na parede, prédios envidraçados, no lugar de pequenos povoamentos de plantio, os charmosos condomínios fechados. A única coisa que não mudou, foi a mulher. Continua sendo a protetora da prole, a que procria para perpetuar a espécie e que aguarda a volta do provedor.

Por isso me divido. Cumprimento ou não, pelo Dia da Mulher?

Pelo sim, pelo não, cumprimento. Amo vocês mulheres, que desde sempre, estiveram um passo atrás na história, mas que, a cada dia, conquistam o seu lugar dando um passinho à frente.

Beijokas,

Rubens

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1 Comment

  1. Marcia Ceschini says

    Rubens,

    Muito lúcido e “feminino” esse olhar. É exatamente isso que acontece desde que mundo é mundo. A mulher traz anos de ser sombra e caminhadas com o fardo nas costas. Mas isso é hábito e costumes e isso não muda de uma hora para a outra.

    Mas siga uma dica, cumprimente.. amamos isso.
    beijocas

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