NÃO QUERO ESCREVER SOBRE AMOR

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Leia ouvindo: Bahamas – No Wrong

Meu óculos com lentes cor-de-rosa quebrou. Não me lembro bem quando foi, mas mesmo quebrado eu fiz questão de guardar, talvez pela ideia de consertar. Nunca fiz isso e nem pretendo. É a típica peça que a gente até usa por estar na moda, mas se arrepende depois de ver as fotos antigas.

Esses óculos foram bem úteis para fugir da realidade e olhar para uma relação como porto seguro. Tenho a vaga lembrança de ter usado ele com mais frequência em um namoro abusivo, recheado de inseguranças. Usar esse óculos fazia sentido, já que o incômodo era constante.

O óculos era o começo para o fundo do poço. Eu não me reconhecia, meus amigos também não. Por um longo período, busquei identidade e esbarrei em rejeição. Não me tornei uma pessoa mais dura por causa disso, pelo contrário, me tornei muito mais humana.

Tão humana que eu não quero mais escrever sobre amor. Não sobre esse amor que tanto pintam e nada vivem. Acho que antes da gente querer amar o outro a gente tem que – urgentemente – aprender a amar nós mesmas.

Fotografia: Juliana Manzato

A gente precisa ser completa para transbordar. O amor não pode fazer as vezes de muleta, nem pode se perder em proibições, também não pode ser inseguro ou repleto de migalhas.

“Ame ao próximo como a ti mesmo”. 

O ensinamento de Jesus não fala sobre o outro, fala sobre nós. O quanto nós nos amamos de verdade? Quantas e quantas vezes anulamos o nosso amor pelo outro? A nossa vontade pelo outro? O nosso jeito pelo outro? Será mesmo que isso é amor?

Eu não quero escrever sobre amor. Eu quero – e preciso – escrever para tirarmos os óculos e olharmos para dentro. Se falta alguma coisa, ainda não é amor. E não vai ser amor procurando no outro. O primeiro amor é o próprio, ninguém vai preencher essa lacuna sem ser você.

Eu não quero escrever sobre o amor que vem do outro. Eu quero – e preciso – escrever sobre o quanto você se sabota por confundir amor próprio com liberdade. O amor próprio te liberta para ser mais consciente dos seus atos, mas isso não faz de você uma pessoa tão livre como imagina.

Eu não quero escrever sobre amor por que na maior parte do tempo é cilada e nós sabemos disso. Enquanto não estivermos conscientes que uma boa parte das nossas relações são construídas na carência afetiva, insegurança e projeção, não podemos falar sobre o que é amor transbordado. Não podemos amar ao próximo como amamos nós mesmos.

Antes de voltar a escrever sobre amor eu quero escrever sobre cura. Eu quero escrever sobre olhar para o próprio umbigo. Eu quero escrever sobre a empatia para olhar para o lado. Eu quero escrever sobre compaixão. Eu quero tirar esse óculos e mostrar a realidade.

Realidade essa que, por estar perto demais se mostra embaçada, por estar longe demais faz as vezes de um borrão.

Não quero escrever sobre amor. Quero escrever sobre verdade.

Juliana Manzato

Apaixonada por amor, cachorros, textos e coisas inspiradoras. Adora fotografia, mar, sol, doce de padaria, verão e olhar o céu azul. Esportista. Feminista. 80 porcentista. Irônica eu? Imagina.
Juliana Manzato

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