NÃO TEMOS TODO O TEMPO DO MUNDO

Leia ouvindo: Jack Johnson – Times Like These

Era 7h quando o despertador tocou. Eu deveria estar pronta até 7h30 para chegar ao compromisso às 8h. Mas eu estava cansada demais. A noite anterior tinha sido ótima, rodeada de amigos, regada a cerveja, musicada ao som do melhor DJ da região. Resolvi dormir e deixar aquele dia só pro próximo mesmo.

Acordei mais de meio dia com o almoço já na mesa. Comi, com um misto de leseira e dor de cabeça, mas consegui acabar e fui resolver as pendências que, como todo ser humano comum, eu tinha pra resolver. Já era quase 13h30.

Os “problemas” duraram a tarde inteira e, quando vi, já tava na hora da sagrada aula de spinning de toda quinta. Corri pela casa derrubando garrafinha pra um lado, tênis pro outro. Catei tudo do jeito que deu e cheguei na aula a tempo. Com um pé de meia a menos.

Fotografia: Juliana Manzato

Sai da aula, toma banho, prepara um lanche, conversa um pouco com os pais, assiste um episódio da série favorita e CARAMBA! Já são 23h. Menos uma folhinha do calendário, mais um suspiro: “Deus, eu não tenho tempo pra nada!”

Isso era 2007. Penúltimo ano de faculdade, dez anos a menos na idade. Sem obrigação de trabalho, o cartão de banco ainda universitário, pouquíssimos boletos no seu próprio nome. Deus, como eu tinha tempo pra tudo!

Dormir até meio dia virou um sonho distante. Não só porque todo dia o despertador chama pra trabalhar, mas porque quando o despertador não chama, o estranho relógio biológico resolve te acordar às 8h num fim de semana. Por nada! Ter tempo livre virou, realmente, artigo de luxo. Não necessariamente porque temos carreiras plenamente consolidadas, mas porque perdemos tempo demais no trânsito, na fila do banco, dentro de nós mesmos, inseguros com a vida. A cultura do ocupado deixou de ser coisa de filme e passou a ser peça mais que presente na sua vida – seja por uma escolha própria, ou de alguém próximo.

Será que as horas de sol diminuíram? Pode acontecer do relógio não estar mais rodando na mesma velocidade de antes? Nem parece mais que dormimos, parece que somente piscamos com uma pausa um pouco maior.

Se a gente pudesse enxergar o futuro da mesma forma que consegue revisitar o passado, certamente viveríamos a vida com menos urgência e um pouco mais de positividade sobre o tempo. Lembro de todas as vezes que, tempos atrás, achei que não tinha tempo pra nada. Hoje, eu torcia para que existisse um banco de horas daqueles minutos que a gente nunca usou ou desperdiçou.

Que a gente sempre tenha um mínimo de sabedoria no meio do caos pra parar, respirar e apreciar os minutos que temos. Eles estão cada dia mais raros, cada dia mais rápidos, cada dia mais intensos. Não voltam. E logo que eles acabam, já estamos sentindo falta.

Nada nessa vida deveria ser mais urgente do que, simplesmente… viver.

Bianca Carvalho
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Bianca Carvalho

Uma carioca branquela, bagunceira e desbocada. Uma mulher questionadora, inquieta e expansiva. Uma amante do mundo, dos cachorros e de pessoas apaixonadas pela vida.

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