Naquela quarta-feira

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Leia ouvindo: Marcelo Jeneci – Felicidade

Naquela quarta-feira, Dona Marisa não tinha que cuidar do neto enquanto a filha trabalhava. Ela tinha um tempo livre e decidiu fazer algo novo. Raramente, disse, vai ao shopping. Mas naquela quarta-feira, resolveu ir até lá para ver sobre o que se tratava um anúncio de oficina de arte que ouvira no rádio. Professora de literatura e tradutora, não era de se estranhar que se interessasse também pelo universo das artes.

Aquela quarta-feira era véspera de feriado. E eu esperava ansiosamente pelos dias de folga, de passeio, de festas. Aguardava esperançosamente esses dias em que tudo de bom pode acontecer, com aquela ideia estreita de que são neles que a vida realmente acontece.

Ao chegar ao local indicado, Dona Marisa descobriu que, na verdade, se tratava de uma oficina voltada para crianças. Crianças de todas as idades. Pensou, então, que não havia motivos para não participar. Acomodou-se em um puff e prestou atenção na história que os atores contavam sobre a vida de Leonardo Da Vinci. O brilho nos olhos de Dona Marisa de nada era diferente do que se via nas crianças entre 4 e 12 anos. Ela estava ali, saindo do óbvio.

Nat

[ Imagem: reprodução ]

Naquela quarta-feira, Dona Marisa tinha um tempo livre e entrou em uma oficina de arte. Pintou uma tela com a cena de um de seus livros preferidos, Madame Bovary. Elogiada por uma das monitoras, ela não teve dúvidas: ofereceu a tela de presente. Ao término das atividades, Dona Marisa se levantou e, professora que é, me deu uma lição – no melhor sentido da expressão – quando fui acompanhar a organizadora do evento lhe dizer que a presença dela ali era inesperadamente especial. Quando comentamos sobre o quadro que havia dado de presente, Dona Marisa disparou com a serenidade de seus quase setenta anos:“A vida é feita de partilha. Quem faz as coisas só para si, não é feliz”.

Naquela quarta-feira comum, Dona Marisa apareceu. Enquanto eu esperava coisas interessantes acontecerem, uma estava acontecendo bem ali. Na minha frente. Dona Marisa chacoalhou a normalidade. A inércia com que vemos e vivemos a vida de segunda a segunda.

Coisas encantadoras não sabem o que é feriado, sexta ou sábado. Coisas encantadoras não esperam o final de semana para acontecer.

Natália Mota
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