No compasso

Ela se sente exausta. Se joga na cama, mas não é seu corpo que pede descanso. É seu coração. Sente ele amarrado lá dentro, tentando se ajeitar de tudo quanto é jeito em uma posição confortável. Mas nada. Para todo lugar que ele vira, machuca e dói. Às vezes, é só uma fisgadinha. Dessas que incomoda na hora e logo passa. Outras, já são porradas bem dadas. Quem mandou abaixar a guarda? Ele sabe que não deveria…pior que quando vê está comentendo os mesmos erros. Burrice, alguns podem pensar. Mas ele acha que sempre vale tentar. E tentar. Tentar mais uma vez.

[ Imagem: reprodução ]

E é aí que cansa. Porque de repente ela tinha falado demais, imaginado demais, esperado demais. Ele, por sua vez, se recolhe envergonhado para dentro do peito, pedindo arrego lá pra cima. Quem sabe a cabeça o ajuda a não fazer mais isso. O que escuta de volta é como aquele pisão com a ponta do sapato, que até esfrega no chão: “eu avisei”. Esse maldito “eu avisei”. Nessa hora, ele pulsa de raiva. Dele mesmo, claro. Os outros não erraram, quem errou foi ele de se expor em carne viva. De novo.

Mas logo vem o consolo de quem detém a razão: “sua hora vai chegar, mas não apresse as coisas”. Ele vai desacelerando, até bater mais compassadamente. No fundo, ele sabe que ela também acredita nisso. Que essa exaustão um dia se transforma em exatidão. E aí, ele só vai ver um único motivo para continuar vivo ali dentro de alguém que só quer amar.

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