No escuro

Leia ouvindo: Bon Iver – Blood Bank

Meus olhos estavam abertos. Arregalados, eu diria. Mas tudo não passava de um completo breu. Claustrofóbica que sou, o escuro total me causou falta de ar. Minhas mãos começaram a suar e estavam mais frias que o tempo lá fora. Demorou para meu cérebro entender que, mesmo sem enxergar, eu poderia respirar normalmente. Sem pânico. Me controlei. Mais relaxada, pude desfrutar da experiência. Estávamos no Unsicht-bar, em Berlim. O restaurante cego, como é mais conhecido. O fato de comer sem ver um palmo na frente do nariz é perturbador, desafiador e, claro, enigmático.

O menu é escolhido antes. E até ele é às escuras. Carne, ave ou peixe. O resto é surpresa. A garçonete Ângela, cega, nos conduz em fila, com as mãos nos ombros uns dos outros. Sem qualquer esbarrão ou tropeço, chegamos até a mesa. Ela nos explica a localização dos talheres e copos. Quando os pratos chegam, desencano das ferramentas, e vou com mão. Vou tateando. Tentando descobrir o que tem no prato. Estar desprovida de um de seus sentidos é instigante. E um tanto quanto assustador também. Me senti vulnerável. Frágil diante do desconhecido.

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A experiência me rendeu milhares de sensações. Que eu recomendo, sem moderação. Mas uma delas em especial me fez escrever esse texto. Senti que o fato de estar em um completo breu, tateando, provando com cautela, é exatamente como fazemos quando conhecemos alguém. A princípio, escolhemos pelo sorriso largo, pelo cabelo castanho ou pelos olhos azuis. O que vem depois, de acompanhamento, não sabemos. É surpresa. Vamos, no escuro, desvendando o outro. Sentindo seus doces e azedos. Suas texturas.

Sem poder enxergar direito, como se uma venda nos cegasse, desencanamos das ferramentas e partimos para o tato. E toda essa descoberta perturba, desafia e  acentua os outros sentidos. O cheiro e o abraço ficam marcados. O gosto também. No desconhecido, o receio é inevitável. O mesmo receio de no prato ter quiabo. Mas, sinceramente, para mim, valeu e vale a entrega. As mãos frias e a falta de ar valem a pena. Nos dois casos.

Assinatura Lívia

A Lívia é nossa colaborada e também vive Em cima do muro

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