O cara da mesa ao lado

Eu sempre achei que quando algo muito grande estivesse para acontecer na minha vida, eu sentiria esse momento se aproximar. Um frio na barriga, uma intuição, um feeling diferente, sei lá. Não sei explicar. Mas eu acreditava mesmo em sinais.

Era um dia comum de outono. O tempo finalmente estava fresco e eu pude me vestir da maneira que eu mais gostava. Saí de casa me achando linda. E, provavelmente, todo mundo também achou. Nunca fui daquelas pessoas que chamam total atenção por onde passam, mas nesse dia, meu astral contagiou. Tipo aquelas propagandas bem mentirosas de absorvente, sabe? Eu passava e deixava o brilho. Todo mundo olhava e sorria de volta pra mim. Eu era toda sorrisos.

{Imagem: reprodução}
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Não demorou pra minha vida mudar. Mas, ao contrário do que eu acreditava, não teve mágica, trilha sonora, câmera lenta, nada disso. Inclusive, foi tudo bem banal. Entrei na minha cafeteria preferida, pedi meu café com leite diário e sentei no sofá mais aconchegante. Ele estava logo ali, na mesa ao lado.

O cara da mesa ao lado era lindo. Não era o mais extraordinário que já vi, mas era lindo. Não vestia roupas extravagantes, não chegava a parar um trânsito e não lia o mesmo livro que eu. Mas era lindo.

Sinto decepcionar, mas não houve nenhum ápice de conto de fadas. O cara da mesa ao lado permaneceu um bom tempo imerso em seu ordinário jornal, e eu, imersa em seus amendoados olhos castanhos.

O cara da mesa ao lado levantou os olhos e encontrou os meus. Sorriu com os lábios e com as discretas covinhas, baixou os olhos para o jornal e voltou a levanta-los. Não havia mais volta. Eu não me planejei. O grande amor da minha vida aconteceu.

O brilho que eu emanava do lado de fora atingiu em cheio o cara da mesa ao lado, e por dentro. Não trocamos palavras, não engatamos o maior e mais gostoso bate-papo de nossas vidas. Sequer perguntamos o nome um do outro. Ele somente se levantou, entregou-me um pequeno pedaço de papel e me deu um beijo no topo da cabeça. Partiu, pela última vez para longe de mim.

O cara da mesa ao lado se tornou o cara ao meu lado. A mão que segura a minha, o coração que bate junto ao meu. Na verdade, ele nunca mais esteve ao lado. Passou a ser o cara da vida à frente.

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Bianca Carvalho
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Uma carioca branquela, bagunceira e desbocada. Uma mulher questionadora, inquieta e expansiva. Uma amante do mundo, dos cachorros e de pessoas apaixonadas pela vida.

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