O desconforto da distância, misturado com a nítida sensação de estar voltando pra casa.

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Leia ouvindo: Joss Stone – Tell Me What We’re Gonna Do Now (feat. Common)

Ele foi a primeira referência que tive de melhor amigo na vida. Daqueles que dormem na sua casa, que chamam a sua mãe de tia, que olham pra você e já reconhecem o que passa na sua cabeça e no seu coração. Ele me apresentou boa parte das melhores músicas que ouço hoje, me aconselhou sobre os namoradinhos da adolescência, puxou a minha orelha em boa parte das vezes que precisei. Riu comigo até a barriga doer das nossas tantas mil piadas internas. Coisas tão nossas, tão especiais.

Foi ele quem morreu de ciúme quando meu corpo de criança foi dando espaço para curvas de mulher. Ele quem me pedia para colocar uma saia mais longa e dizia que daquele jeito, eu não entraria no seu carro. Foi com ele que aprendi a dirigir e também que descobri qual o melhor lugar do mundo pra ver o pôr do sol – ainda que somente para nós dois. Foi pra ele que contei sobre a minha primeira vez e foi para estar em seu aniversário que eu tomei coragem de terminar um relacionamento abusivo. Era ele quem secava as minhas lágrimas ao invés de cantar o seu parabéns. Na noite em que me perdi voltando da balada, foi pra ele que liguei. No dia em que seus pais se separaram, foi o meu telefone que tocou.

Eu não sei quais eram os planos da vida, mas eu tinha certeza de que o teria eternamente ao meu lado. Aos poucos, o trabalho corrido e o fim das férias na praia foram nos afastando. Falávamos pouco, nos víamos menos ainda. Era como se essa pausa fosse nos trazer diferentes, fosse matar o que éramos, pra renascer o que seríamos. Quando o destino nos colocou na mesma rua, caminhando em sentido contrário, o coração acelerou.

Um sorriso, um abraço. ‘Como você está?’, ‘Que saudade…’. O desconforto da distância, misturado com a nítida sensação de estar voltando pra casa. Uma conversa olho no olho que durou horas, o fim de um relacionamento como pauta, a velha sintonia que sempre nos trouxe de volta. O cenário era o mesmo de nossa infância e adolescência, mas as pessoas sentadas naquela beira de praia, estavam se dando a inédita chance de deixar o coração gritar mais alto.

Horas mais tarde, envoltos em um abraço que aproximava ainda mais as nossas almas, olhávamos a lua reluzente enquanto o nosso silêncio dizia tudo por nós. Porque demoramos tanto? – era a nossa principal pergunta. Mas ainda se lembrássemos de todos os motivos que já haviam nos afastado, nada parecia explicar o suficiente. Há tempo certo para tudo e contra essa lei natural, nada pode. Foi preciso olhar em mil outros olhos pra descobrir que ninguém me enxergaria como ele faz. Todas as bocas que me beijaram, provaram que era nos lábios dele que morava a minha paz. Tantas lágrimas que eu derramei, me perguntando o porque de nunca dar certo, de nunca ser feliz de verdade. Quando ele apareceu caminhando devagar, em minha direção naquele final de tarde, eu tive certeza. Tantos outros me amaram, meu amigo, mas nunca melhores que você…

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[ Imagem: reprodução | Pinterest: Cotidiano Dela ]

Mayra Peretto

Uma mulher de cabeça e coração sempre cheios! Capricorniana da gema, produtora de eventos por profissão e escritora pra vida. Apaixonada pelo 'hoje', escreve sobre o que pulsa nas veias e escorre pelos olhos. Seus dias são feitos de poesias, boas músicas e muita luta!"
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