O dia em que ‘gourmetizaram’ o amor!

Leia Ouvindo: Chico Buarque – Olho nos olhos

Ela entrou no restaurante, sentou em uma mesa que dava canto com uma das janelas, digitou rapidamente coisa de duas ou três mensagens enquanto dizia ao garçom para lhe trazer uma cerveja. Antes que ele pudesse começar a ensaiada apresentação de todos os 125 rótulos de cervejas artesanais importadas que a casa tinha, ela pediu somente que ele descesse a mais gelada! Era nítida a sua impaciência! Ele chegou junto com a pale ale geladíssima! Sentou-se, esticou o casaco no encosto da cadeira entre eles e com uma polida educação, agradeceu o copo oferecido pelo prestativo atendente! Pediu uma água com gás e uma porção de batatas rústicas salpicadas com brie e presunto parma! Ela, enquanto bebia num copo que, em sua concepção, era fino demais para a sua cerveja, só observava!

Ele tinha ligado para ela durante a tarde pedindo para que se encontrassem mais tarde. Eles, que já estavam juntos há quase dois anos, precisavam conversar! Ela não era mais uma menina, já não nutria em seu coração somente singelas esperanças e trazia consigo uma forte intuição piscando em neon, lhe prevendo a iminência de um desastre. Ele começou um discurso confuso. Dizia sobre as coisas no trabalho, falou sobre a promoção que saiu, sobre o interesse por algumas viagens. Misturou em doses homeopáticas algumas das poucas brigas que os dois tiveram por conta de sua ausência. Foi aí que ele, sem ter mais pra onde fugir, disse o fatídico ‘não dá mais’! Isso mesmo, sem qualquer explicação decente, fazendo a mente dela revirar em segundos os últimos fatos em busca de respostas! Ele, que há pouco menos de um mês havia proposto a ela o casamento! Ele, que já era recebido na casa dos avós dela como neto, que comprara uma escova de dente roxa para que ela se sentisse em casa quando dormisse em seu apartamento.

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[ Imagem: reprodução ] 

O sangue sumiu de suas veias, ela já não conseguia ouvir uma palavra sequer. Em meio a um longo suspiro, ela se levantou e usou de poucas e boas palavras para lavar a alma! Disse bem alto, para que todo o mundo além das paredes daquele bar pudesse ouvir também! Acusou o réu de covardia, apontou-lhe um dedo na cara e vomitou a sua incredulidade. Lembrou a ele das promessas feitas, disse que isso não se faz com ninguém, tampouco com a mulher que dizia amar! Ele quis argumentar dizendo que o problema era mesmo com ele e ela, só pôde concordar. O amor não era para palermas como ele!

Ela se sentia usada, tal como aquela pobre batata que nunca seria uma porção de verdade! Regada a azeite trufado e decorada com esse tal de queijo brie, transformada em artigo milionário com as suas quantidades reduzidas. Jamais estaria presente no centro de uma verdadeira mesa de bar, com bons amigos, todos rindo alto sem frescuras, bebendo uma legítima cerveja de garrafa! Foi exatamente isso o que ele fez com o amor! Gourmetizou algo que deveria ser simples! A vida daquele pobre homem só acontecia da boca pra fora, jamais do coração pra dentro! O que os olhos não viam, não lhe interessava! E ela era uma mulher simples demais para atender as suas peculiares necessidades sociais. Ela não era uma versão gourmet!

Sentindo o amargo da cerveja de 40 reais na boca, ela seguiu viagem! Dois ou três dias depois, levantaria da cama, lavaria o rosto e recomeçaria essa história de buscar o seu par! Quem sabe numa esquina qualquer encontraria alguém tão simples como ela, querendo viver na íntegra aquela versão antiga do amor! Ou talvez não, isso ninguém sabe! O que ela já sabia era que assim como a batata e a cerveja, o melhor jeito de amar é o original! Sem muitas cascas, sem muitos floreios, sem querer mostrar para o mundo algo que não pode ser por dentro! Assim, do jeito mais simples que a vida pode ser! Ela rezava para que seu coração tivesse aprendido a lição e que assim que a dor passasse, fosse capaz de escolher melhor! Naquele momento, ela só era capaz de querer a sua solidão, um copo americano de cerveja gelada e um violão. Mas para o futuro, o que ela mais desejava era uma generosa porção de amor, salpicada de paixão avassaladora, regada com o bom e velho companheirismo honesto!

Mayra_2015

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