O JORNAL DO DIA

Quem não surtou - ou chorou, nessa quarentena, não viveu. E pior, não entendeu o que está acontecendo.

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Leia ouvindo: Cazuza – Ideologia

Hoje pela manhã, fazendo limpeza nas planilhas do excel, encontrei meu “planejamento de projetos -2020.xlsx”. Abri o arquivo pela última vez no início de março. Quase 3 meses depois, me lembro que o motivo da abertura era o segundo semestre, precisava alterar duas datas, e só.

Nunca passou pela minha cabeça participar de um evento tão significativo para a humanidade. Também não imaginei que o traje seria pijama – para os privilegiados, é claro.

Meus olhos marejaram. A vulnerabilidade se apresentou mais uma vez, nua e crua.

Quem não surtou – ou chorou, nessa quarentena, não viveu. E pior, não entendeu o que está acontecendo.

A planilha dá para mudar, “planejamento de projetos – 2021.xlsx”, o que não dá, é aturar gente egoísta, sem noção e ainda por cima, cafona. Cafona no pior sentido que se pode ser, sem consciência. Não dá mais para viver nosso dia a dia de maneira alienada, de cima de um belo pedestal de prata, enquanto tem gente sem dignidade para viver. É fácil falar de economia vivendo na classe média.

Respiro fundo. Entende o surto e o choro ali em cima? Então.

Não é sobre os MEUS planos, é sobre uma BOLHA maldita que não estoura nunca. Não estoura, não pensa, não tem repertório ou referência, vive apenas para o próprio umbigo.

[ pausa ] 
Depois da planilha e dos olhos marejados, recorro a minha pequena sacada, uma vista imperdível!

Fotografia: Juliana Manzato

Quem pode(!!!!) ficar em casa, fica. Fica, mas não é capaz de arrumar a própria casa, tirar o próprio lixo, lavar a louça ou se quer arrisca cozinhar. Fica, acreditando que empregada doméstica é “serviço essencial”. Fica, mas se recusa a pagar o salário da empregada doméstica sem receber o “serviço”. Fica lendo o jornal do dia sentada em uma belíssima cadeira de madeira na sacada, enquanto a empregada limpa os vidros do quarto.

É Pandemia, mas a economia não pode parar. E a bolsa de valores, hein?

O fundo do poço tem porão. Valha-me.

Juliana Manzato
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