Ô meu amor…

Leia ouvindo: Mallu Magalhães – Olha Só, Moreno

Ô meu amor – ele disse bem no cantinho da minha orelha, fazendo arrepiar. E silenciou! Enquanto caminhávamos pelas ruas estreitas daquela cidadezinha pitoresca, com as mãos formando um laço de amor, lembrávamos da vida passada. Do dia em que nos conhecemos, da manhã chuvosa em que ele me propôs que fosse, pra sempre, viver junto dele. Dos anos em que moramos juntos naquele apartamento pequeno, próximo a Av. Rebouças. Do gato chamado Buarque, que adotamos e virou o nosso filho. Das louças encostadas na pia, do meu problema em esquecer-me dos vencimentos das contas, do dia em que cortaram a luz. Lembramos não como quem sofre, mas como quem celebra. Chegamos ao ápice da felicidade naqueles longos e sagrados anos.

A vida seguiu. Ele foi enviado pra assumir um cargo importante no exterior, eu lutei contra os meus piores demônios pra usar de toda a minha sensibilidade e apoia-lo em qualquer decisão. Chegamos ao fim! Pra sobreviver, numa atitude desesperada por socorro, cortamos todo e qualquer contato. Talvez metade de mim tenha partido junto daquele avião, naquela noite quente de primavera. Foi preciso coragem pra não se render, pra não pegar o próximo voo e ir com ele. Eu era aqui, não havia saída. E ele? Ah, ele era do mundo! E o mundo o queria com muito desejo.

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[ Imagem: reprodução ] 

Enquanto fazia as malas pra vir à Paraty, me lembrei dos quatro anos que se passaram desde essa despedida. Eu não podia dizer que tinha sido infeliz. Eu só não era capaz de amar o mesmo tanto que um dia havia sido. Esse amor era direito exclusivo dele. Eu não queria lutar contra esse fato.

E então, em meio aos meus próprios devaneios, sentada à beira mar, esperando encontrar o que preenchesse esse vazio inexorável, ouvi a sua voz. Ele dizia, trêmulo, o meu nome. E o repetia como se fizesse uma oração. Naquela praia, ainda que houvesse outras 1.000 pessoas, era ele quem reluzia e emanava o meu norte. Não precisávamos dizer, não era necessário explicar. Tornamo-nos braços, abraços, pele, corpo e alma. Éramos concha regressada ao porto de nossas vidas.

Ele tinha um aroma familiar, como se eu tivesse voltado pra casa. E nada importava, envoltos numa atmosfera totalmente paralela. A vida nos prega peças. Adiamos sonhos, pegamos atalhos e caminhos desconhecidos, sofremos como se não pudesse existir amanhã, sorrimos como se a noite nunca fosse chegar. E é essa efemeridade que nos permite seguir em frente, prontos pra enfrentar qualquer tempestade, ainda que não saibamos disso. É a maneira que a vida achou de nos tornar mais fortes!

Habituei-me, por causa da ausência dele, a esperar menos dos meus dias. Era preciso, a cada 24 horas, encontrar novas e novas maneiras de sorrir, de encontrar vontade de viver onde não existia. Num ato altruísta, acordava todas as manhãs imaginando o quão feliz ele estava, onde quer que seus caminhos o tenham levado. O quão realizado ele seria, o quão valente eu me tornaria.

Ô meu amor, meu único e verdadeiro amor! – eu respondi! Obrigada por me ensinar a amar sem amarras. Eu não precisava pensar no futuro, tampouco me incomodar com as trevas do passado. Nunca soube dos motivos que a vida se muniu pra bagunçar os nossos caminhos e agora eles nem ao menos importam! Foi o amor que me permitiu te deixar partir e é ele, o único capaz de te trazer de volta! Num lindo fim de tarde, caminhamos em paz, rumo a nossa eternidade!

Mayra_2015

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