O pão nosso de cada dia

Dificilmente vou à padaria e, quando vou, o pedido já está decorado na ponta da língua: “ Me vê dois pãezinhos, por favor”.  Não peço mais do que isso, porque é quantidade exata para a janta e, quem sabe, para o café da manhã. Mas naquele dia, foi diferente. Até agora me pergunto o que foi que me deu para eu mudar o roteiro e pedir três pães. Assim, do nada. Ora, mas que exagero da minha parte.

Foto: reprodução.
Foto: reprodução.

Não sei, só sei que pensei que seria melhor, caso eu precisasse. Sai da padaria com a sacola e apertei os passos para chegar logo em casa. Dobrando a esquina, me deparo na calçada com (mais) um dos muitos moradores de rua. Ele estava deitado coberto com uma manta até a cabeça bem no meio da passagem, impedindo qualquer pedestre de transitar em linha reta.

Eu fui forçada a desviar e, imaginando que ele estivesse dormindo, me espantei quando ele tirou o cobertor da cabeça e me abordou: Moça, me dá um pão? Tô com fome…

Não tive nem tempo de raciocinar. Saquei o “terceiro” pão da sacola e entreguei a ele, que me respondeu: Deus te abençoe, moça. E eu pensei “Ele acabou de fazer isso, moço”. Não era eu quem precisava daquele pão.

Dois dias depois, estava andando ensopada – também na volta pra casa – devido a um temporal que caiu, após mais um dia de calor sufocante. Estava meio atordoada, pois um pedaço de papelão que alçou voo com o vento veio de encontro com a minha cara. Doeu e comecei a chorar, borrando toda minha maquiagem e me deixando ainda mais em um estado deplorável. Entrei na farmácia e liguei para meus pais enquanto esperava a chuva diminuir. Impaciente, e decidi continuar a caminho de casa, já que não ficaria mais encharcada do que já estava. Mas, ainda sob efeito de tanta zica, eu simplesmente sai em disparada e não olhei para atravessar a rua. Ameacei cruzar a faixa de pedestre sem notar que o sinal estava aberto. Prontamente senti uma mão na minha frente e um grito “moça!”. Era uma menina que previu que eu certamente seria atingida pelo motorista que passava – que me xingou bastante, e com razão.

Céticos vão dizer que foi mera coincidência. Ok, respeito. (Mas voltemos ao devaneio).

Prefiro acreditar que não. Se não fossem esses dois acontecimentos aparentemente tão distantes, eu não teria percebido que o bem tem tanto poder, mais do que a gente imagina! Aquele para com pessoas que não conhecemos. Me alimentei do bem mútuo, apesar de terem durado poucos segundos. Aprendi, por vias literais, que o que pedimos em cada Pai Nosso vem da onde a gente menos espera. Cabe a nós reconhecermos o pão nosso de cada dia.

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