O que eu não te disse

Leia ouvindo: The Fray – How To Save a Life

Lembro de gastar muitas palavras do meu repertório com você, e da maior parte delas ser sempre positiva e de encorajamento. Claro que eu queria te impressionar, tinha a ilusão de que provando para você que eu era completa – parceira, inteligente, disponível -, eu criaria na sua percepção a ideia de que você não precisaria de mais nada.

Há uma fase do período de aproximação e conquista que a gente aceita certa cegueira em prol de buscar o conforto de um relacionamento bom. Não é que a gente pare de discernir o bom do ruim, mas cedemos e relevamos com muito mais facilidade.

Depois que o affair não deu certo, a gente recobra a visão e a consciência de tudo que passou – se você for como eu, vai recriar cada passo do relacionamento na sua cabeça e ler todo o histórico de mensagem trocada. Voltei a enxergar as pessoas que estavam embaçadas quando via somente você com clareza, e descobri que cheguei naquele aliviante momento de superação. Aí sabe o que aconteceu? Lembrei do repertório de palavras que NÃO gastei com você.

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[ Imagem: reprodução ] 

Eis aqui o que eu não te disse: sempre tive preguiça da sua preguiça. Eu fingia que compreendia sua desmotivação porque eu mesma estive nesse estágio, mas ao contrário de você, tratei de sacudir a poeira e passar por cima de todos os problemas porque eu tinha vontade de viver. Eu também não achava graça de todos os vídeos que você me mandava. Ria porque não me doía os dedos digitar meia dúzia de letra H e A e sabia que você ficava prosa pelas suas “descobertas”. Eu achava a maioria delas bem imbecil.

Detestava o jeito como você cavava os meus elogios e a forma como nunca os devolvia. Que te custava pensar em como meus elogios te faziam bem e que, provavelmente, os seus também me fariam? Também foi difícil aceitar o seu medo de se entregar e a inconstância do seu afeto, que passava de 100 a 0 por cento em questão de dias ou até mesmo horas.

Por tudo que enalteci em você, pode ser que agora você pense que preenche algum grau de perfeição. Tá longe. Mas também não significa que menti. Tudo que senti de bom se traduziu nas coisas positivas que te falei.

Nada disso me fez te odiar. Nem nunca vai fazer. Somente sigo a máxima de que é melhor falar demais do que nunca dizer o que preciso. Porque se tem uma causa mortis que não vai me acometer é o sufocamento pelas palavras que eu nunca disse. Tardias, mas sempre proferidas.

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Bianca Carvalho
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Bianca Carvalho

Uma carioca branquela, bagunceira e desbocada. Uma mulher questionadora, inquieta e expansiva. Uma amante do mundo, dos cachorros e de pessoas apaixonadas pela vida.

2 comentários em “O que eu não te disse

  1. Oii Meninas,
    o texto caiu como uma luva, chega ser um alivio, botar pra fora tudo aquilo que precisávamos dizer, e por um motivo de força maior (ou por egoísmo mesmo) guardamos para nós, achando que é melhor guardar certas coisas. Me encaixei perfeitamente nesse texto. Escrevo textos assim no meu, e é libertador pra mim, pq mesmo não falando diretamente para a pessoa, é como se tirasse um peso das costas.
    Lindo texto, como toodos os de vocês aqui 🙂
    um super beijo!!

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