Onde os homens estão?

Maria Eduarda estava cansada de ficar só. Não queria mais ir sozinha ao cinema, tinha enjoado de ficar escondidinha nos cantinhos dos restaurantes na famosa “mesa pra 1” e tudo o que ela queria era alguém que fizesse o seu coração de mulher suspirar cor de rosa.

Vocês podem pensar que Maria Eduarda era bonitinha ou, como dizem, a feia arrumadinha.

Nada disso. Maria Eduarda era muito bonita, sabia se vestir adequadamente para cada situação e atraia olhares masculinos (e alguns invejosos femininos) por onde passava.

Mas, Maria Eduarda queria mais que olhares e efemeridades. Maria Eduarda queria alguém para andar de mãos dadas, tomar sorvete no mesmo potinho e tirar fotos com o celular, de rostinho colado com seu amado.

E Maria Eduarda decidiu: iria à luta naquele dia mesmo. Naquela tarde Maria Eduarda fez o pacote completo, mais opcionais de luxo. Corte de cabelo, mechas, unhas das mãos e pés, depilação nível profissional, maquiagem matadora e aquela roupa que deixava transparecer o lado mulher de Maria Eduarda.

E ela foi pra balada mais badalada embalar a noite a fim de balear alguém. Casa cheia, som do momento, boa bebida e só gente interessante num raio de 360 graus. Então, Maria Eduarda, motivada pelo espumante, clima e feromônios no ar, caiu na noite com olhares e bocas provocantes. A pouco mais de um metro, estava ali, bem vestido, rosto forte e de personalidade, barba por fazer demonstrando masculinidade, olhar no fundo dos olhos dela, alto, boa gingada e aparentemente vidrado nela. Maria Eduarda tinha conseguido. Pensou: me aproximo ou deixo ele tomar a iniciativa? Esperar pra quê? “Quem espera sempre cansa”, já dizia seu avô. E Maria Eduardo partiu pras cabeças. Chegou próximo ao gajo e já puxou conversa. O bonitão não respondia nada, ficava ali só olhando pra ela, não desviava o olhar por nada nem ninguém. Maria Eduarda estava muito feliz e já sonhava com as alianças. O som muito alto atrapalhava a conversa mais profunda e Maria Eduarda sugeriu irem pra outro lugar. Tudo o que ela escutou foi “eu vou… eu vou… eu vou…”. Maria Eduarda estava excitada com tudo aquilo. Um homem bonito e que havia ficado pasmo, abobado até, com ela. E ele olhava com uma feição de Poodle na chuva apenas balbuciando “eu vou… eu vou…” e das palavras partiu pra ação: eu vou… vomitar e UUUUUUÓÓÓÓÓÓÓ!!!!

É isso, Maria Eduarda estava completamente coberta por um mix de diversas bebidas etílicas com energético.

Adeus alianças, adeus sorvete em um potinho só, adeus fotos de rostinho colado de siameses.

Maria Eduarda foi pra casa desolada – e molhada. Tudo o que ela queria era uma tampa pra sua panela, um chinelo confortável pro pezinho cansado dela ou ainda, um braço pra fazer de travesseiro.

Amigos mais próximos disseram: não se encontra namorado em baladas. Outros foram mais enfáticos: você poderia ter sido estuprada.

Então, onde os homens estão? Ah, estão por aí, disseram algumas amigas. Oras, eles estão.. comprando coisas numa farmácia, por exemplo?

Maria Eduarda, guerreira e forte que era, decidiu que olharia mais para os lados. Afinal, os homens devem estar por toda a parte.

E saiu, novamente à luta.

Um homem inteligente deve estar em uma livraria? Afinal, onde mais um homem que busca cultura pode estar? E nas suas idas ao shopping, tratou de dar uma sapeada pelas bookstores da vida. Tudo o que conseguiu foi marcar um encontro com um pseudo-intelectual pedante que fazia questão de mostrar o quanto ele dominava de todos os assuntos – de Nietzsche a Paulo Coelho. Sabia todas as teorias acerca do comportamento humano e como a humanidade tende a caminhar para o caos, perdida em um mundo solitário, absolutista e individualista.

Maria Eduarda voltou pra casa desolada, com conhecimentos sobre filosofia, mas desolada.

Buscou em supermercados, na hora das compras. Conseguiu 10 minutos de boa conversa com um bem apessoado cavalheiro que a ajudou pegando um pacote no alto de uma prateleira. Falava bem, era bonito, gentil e, no décimo primeiro minuto, chegou sua esposa para acabar com aquela conversa fiada e perguntando quem era aquela vagabunda que ele estava conversado.

Ah, Maria Eduarda… chamada de vagabunda em pleno supermercado…

E continuou, continuou e continuou. Achou hipocondríacos em farmácias, machistas em oficinas mecânicas, narcisos em perfumarias e canalhas em bares. Conheceu amigos gays de amigas e filhinhos de mamãe no seu local de trabalho. Soube identificar mentirosos em cafés e até com inseguros patológicos ela cruzou nas lojas do dia-a-dia. Aprendeu como se livrar de ciumentos e possessivos, já na primeira conversa e com isso, Maria Eduarda foi crescendo. E quanto mais crescia, mais Maria Eduarda parava de procurar por sua alma gêmea.

E foi aí, que o destino, faceiro e fanfarrão como ele é, resolveu mover as peças desse enorme tabuleiro chamado vida e começou a mostrar para Maria Eduarda onde os homens estão.

E Maria Eduarda, inteligente e linda como somente ela é, viu, com muito espanto, que os homens estão em todo lugar e em toda sua volta.

A diferença, é que agora Maria Eduarda não está à procura, mas está captando sinais apenas de quem está na mesma sintonia que ela.

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admin

11 comentários em “Onde os homens estão?

  1. Excelente texto Rubão !! Parabéns meu velho !! Acho que esse negócio de ficar procurando em todo o lugar o príncipe encantado não rola mesmo.
    As verdadeiras parcerias são aquelas que acontecem naturalmente, aos poucos, arroubos de paixão sempre tendem a dar em merda !!

  2. Pra todas as Maria Eduardas espalhadas por aí, essa é a mais pura verdade. A gente até acha um aqui, outro ali, mas nunca funciona na base do desespero.
    O negócio é aprender a ficar bem do jeito que estamos. Confesso que não é fácil, mas a busca descabelante é muito mais difícil.

    Assinado: Uma pseudo-Maria Eduarda

  3. Posso confessar?! Me senti uma ‘Maria Eduarda’, as vezes eu pergunto ” Onde os homens estão?”
    Muito boa a sua reflexão, vc consegue me surpreender a cada texto, gosto disso”

    Obrigada Rubão por me proporcionar leituras assim, tão prazerosas, que fazem com que eu reflita sobre minhas ações.

    Um beijo
    Dani

  4. Nossa Dani, assim eu fico sem jeito… Fico feliz que tenha gostado a ponto de refletir sobre as ações pessoais. Muita responsa pra mim, hein? rsrsrsrsr. Grande beijo minha querida!

  5. Mãaaaae, quando eu crescer eu quero escrever que nem esse cara aí! haha
    SENSACIONAL esse texto!

  6. O problema dessa “Maria Eduarda” é que mal achava que encontrava um grande amor e já pensava logo em casar (…já sonhava com as alianças), curta a fase do namoro, casais espertos namoram p/ sempre. Sair a caça de uma boa companhia geralmente dá nisso..uma boa relação acontece…e nada acontece por acaso (minha mulher adorava citar isso)..e eu adorava escutar ela falando :)D

  7. Um homem a ser desejado não está num lugar específico. A mulher que homem vai querer em todos os sentidos da palavra também não. Isto seria tratar o relacionamento como uma feira. Os homens estão por aí, as mulheres também, mesmo que seja no inconsciente consciente de um redator e se chame Maria Eduarda.

  8. Perfeito Sr Rubão
    Matou a pau
    Falou e disse… agora abre um consultório e começa a colocar isso na cabeça da mulherada, pq tem muita Maria Eduarda por aí…
    Bjus e parabéns!

  9. Beto e Jean, estão certíssimos. Um relacionamento é feito de fases. Queimar fases só faz estragos. Hoje eu vejo que isso se perde cada vez mais. A fase do conhecer, ficar, namorar, brigar, amadurecer, noivar e casar. Hoje é do nada pro tudo de um dia pro outro. E as mulheres e homens estão por ai, sim. Do lago, no andar de cima de baixo, na frente… É só dar ao tempo o tempo que ele precisa pra transformar dois completos desconhecidos em grandes amantes. Leia-se amantes, quem se ama, quem se deseja. Valeu brothers.

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