#OVERÃOINSPIRA | SUBLIME EM SUA IMPERFEIÇÃO

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Leia ouvindo: Alessia Cara – A little more

Foi num dia de buscas por histórias inspiradoras que esbarrei nessa aqui, sobre a “Querida garota do maiô verde”. Descobri-lá me deixou um tanto incomodada, é de 2016. Como tamanha beleza passou desapercebida por mim todas esses anos? Não sei. Me acolhe a ideia que tudo aquilo que chega, chega no momento certo. A garota do maiô verde chegou justamente quando #overãoinspira ganha ainda mais forma. Já, já é oficialmente verão.

“Querida garota do maiô verde” é uma carta aberta escrita pela espanhola Jessica Gómes para uma garota desconhecida sentada ao seu lado na praia. Foi o post de facebook mais popular do verão europeu em 2016. O sucesso não foi só por ser uma carta muito bem escrita, é o amor próprio contato da maneira mais delicada e bonita que se pode ler.

Eu, você e outras tantas mulheres, já fomos a garota do maiô verde. Já estivemos na desconfortável posição de esconder atrás de uma canga a infelicidade com algum pedacinho do corpo – ou ele todo.

Fotografia: Juliana Manzato

O verão sempre foi traduzido pelo desfile de corpos milimetricamente esculpidos em dieta regrada e muita atividade física. Eu mesmo já tive um projeto compartilhado aqui. Não me arrependo, porque não era só um corpo bonito, foi o inicio de uma conexão ainda maior. A grande verdade é que ninguém contou para nós, mulheres, que o que importa no verão é ter alma solar.

Não são as calorias, mas os incontáveis sorrisos. Não são as estrias ou celulites, mas o banho de mar. Não é a barriga saliente, mas o mergulho na cachoeira. Não é a gordura acumulada, é a pele bronzeada. Não é um corpo de verão, mas as histórias vivenciadas através dele.

A garota do maiô verde é tão incrível quanto você. Note-a. Esteja aberta para abraça-la quantas vezes forem necessárias. Ela pode estar de mãos dadas com você agora, pensando na viagem de reveillon que acontecerá em breve. Liberte-a.

Querida garota do maiô verde:

Sou a mulher da toalha ao lado. A que veio com um menino e uma menina.

Antes de mais nada, quero te dizer que estou me divertindo muito perto de você e de seus amigos, neste pedacinho de tempo em que nossos espaços se tocam e suas risadas, sua conversa ‘transcendental’ e a música de sua turma me invadem o ar.

Fiquei meio atordoada ao perceber que não sei em que momento de minha vida deixei de estar aí para estar aqui: deixei de ser a menina para ser “a senhora do lado”, deixei de ser a que vai com os amigos para ser a que vai com as crianças.

Mas não te escrevo por nada disso. Escrevo porque gostaria de te dizer que prestei atenção em você. Não pude evitar.

Vi que você foi a última a ficar só em traje de banho.

Vi você ficar atrás de todo o grupo, discretamente, e tirar a camiseta quando acreditava que ninguém estava olhando. Mas eu estava. Não estava olhando para você, mas te vi.

Vi você se sentar na toalha em uma postura cuidadosa, tapando o ventre com os braços.

Vi você colocar o cabelo atrás da orelha inclinando a cabeça para alcançá-la, talvez para não tirar os braços de sua estudadíssima posição casual.

Vi você se levantar para ir dar um mergulho e engolir em seco, nervosa por ter de esperar assim, de pé, exposta, por sua amiga, e usar uma vez mais seus braços para encobrir as estrias, a flacidez, a celulite.

Vi você agoniada por não conseguir tapar tudo ao mesmo tempo enquanto ia se afastando do grupo tão discretamente como tinha feito antes para tirar a camiseta.

Não sei se tinha algo a ver, em sua insatisfação consigo mesma, o fato de a amiga por quem você esperava soltar a longuíssimo cabeleira sobre umas costas em que só faltavam as asas da Victoria’s Secret. E enquanto isso você ali, olhando para o chão. Procurando um esconderijo em si mesma, de si mesma.

E eu gostaria de poder te dizer tantas coisas, querida garota do maiô verde… Talvez porque eu, antes de ser a mulher que vem com as crianças, já estive aí, na sua toalha.

Eu gostaria de poder te dizer que, na verdade, estive na sua toalha e na de sua amiga. Fui você e fui ela. E agora não sou nenhuma das duas – ou talvez ainda seja ambas – assim, se pudesse voltar atrás, escolheria simplesmente curtir a vida em vez de me preocupar – ou me vangloriar – por coisas como em qual das duas toalhas, a dela ou a sua, prefiro estar.

Queria poder te dizer que vi que carrega um livro na bolsa, e que qualquer ventre que agora tenha seus dezesseis anos provavelmente perderá a firmeza muito antes de você perder o juízo.

Eu gostaria de poder te dizer que você tem um sorriso lindo e que é uma pena estar tão ocupada em se esconder que não te sobre tempo para sorrir mais vezes.

Eu gostaria de poder te dizer que esse corpo do qual você parece se envergonhar é belo simplesmente por ser jovem. É belo só por estar vivo. Por ser invólucro e transporte de quem você realmente é e poder te acompanhar em tudo que você faz.

Eu adoraria te dizer que gostaria que você se visse com os olhos de uma mulher de trinta e tantos porque talvez então percebesse o muito que merece ser amada, inclusive por você mesma.

Eu gostaria de poder te dizer que a pessoa que um dia te amar de verdade não amará a pessoa que você é apesar de seu corpo e sim adorará seu corpo: cada curva, cada buraquinho, cada linha, cada pinta. Adorará o mapa, único e precioso, que se desenha em seu corpo e, se não o fizer, se não te amar desse jeito, então não merece seu amor.

Eu gostaria de poder te dizer – e acredite, mas acredite mesmo – que você é perfeita do jeito que é: sublime em sua imperfeição.

O que posso te dizer eu, que sou só a mulher do lado?

Mas – sabe de uma coisa? – estou aqui com minha filha. É aquela do maiô rosa, a que está brincando no rio e se sujando de areia. Sua única preocupação hoje foi se a água estava muito fria.

Não posso te dizer nada, querida garota do maiô verde…

Mas vou dizer tudo, TUDO, a ela.

E direi tudo, TUDO, ao meu filho também.

Porque é assim que todos merecemos ser amados.

E é assim que todos deveríamos amar.

[ publicação original, El País Br/Estilo

A carta ganhou uma adaptação ainda mais cheia de poesia feita pela produtora Maria Farinha Filmes junto com a Natura e agência Africa. São os 7min mais bonitos que você vai ver hoje. 

 

Juliana Manzato

Apaixonada por amor, cachorros, textos e coisas inspiradoras. Adora fotografia, mar, sol, doce de padaria, verão e olhar o céu azul. Esportista. Feminista. 80 porcentista. Irônica eu? Imagina.
Juliana Manzato

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