POST-IT

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Leia ouvindo: Lily Allen – Smile

O coração, sem mais nem menos, gelou! Não era manhã, mas o início daquela noite ocorreu um despertar abrupto depois de um sono caloroso recheado a série. Quando abriu os olhos, Rory Gilmore ainda serpenteava na tela da televisão citando algum pensador ou reclamando sua vivência de garota privilegiada, branca e americana.

Primeiro pensamento foi, por qual cargas d’água havia escolhido novamente assistir a série Gilmore Girls durante o final de semana. Talvez tivesse sido o trabalho acumulado por vários meses que exigia melhores indicadores em cada grupo de WhatsApp, o cansaço e as mentiras engolidas a seco de um relacionamento sem status, mas que mais uma vez já dava sinais de que estava fadado ao fracasso, talvez um terapeuta soubesse falar melhor.

Mas, naquela noite de sábado, por volta das 23h, o coração a fez acordar em um salto. Um pesadelo a fez acordar de um sono que poderia ter durado a noite toda de tão caloroso que estava. O medo, lhe fez procurar seu porto seguro. Aquele homem há quem já havia devotado por dois anos seu coração, suas conquistas e lealdade. Entre altos e baixos dele, é verdade. Entre sumiços e namoros dele também, é verdade.

O medo causou urgência. Foram uma, duas, três…. dez ligações ao todo. Apenas as duas primeiras deram sinal de chamada e as seguintes a revelação de um número desligado.

Lembrava-se de que o telefone dele estava com problemas nos carregadores há meses! Várias brincadeiras e diálogos foram a cerca dessa falha de um Iphone com muito tempo de uso. Disse para si mesma o famoso “relaxa, não é nada! Ele deve apenas estar dormindo”. Mas vocês devem saber como é cabeça de mulher, certo? Quando ela sabe, ela apenas sabe. O coração estava na urgência do despertar do susto. Sem pensar muito, já estava no carro em direção da casa do seu motivo de aflição.

A resposta na portaria: “Desculpe, mas ninguém atende. Certeza que está em casa?”

Mas o cérebro falou, ele está com ela. A famosa ex, “a maluca”, “a famosa”, “aquela que jamais vou voltar a namorar”, “a famosa que os amigos usam para cutucar seu ego”, “a famosa comentarista da página de pilates da qual eles frequentam e que ele jurava que nunca mais aconteceria nada”. Menos de 1,8 kms de distância dali, 7 minutos de carro. Por qual motivo não ir, não é mesmo? Nada a ser feito por volta da 1h da manhã.

Não houve choro, não houve escândalo ou depredação de propriedade privada de ninguém. O mundo apenas rodou mais lento e aquela sopa de legumes não quis ficar mais no corpo.

Respira e inspira devagar. Olha de novo a placa do carro na frente do apartamento dela e respira de-va-gar! O máximo que pode.

As lágrimas caem sozinha, sem força.

E assim, aquela jovem mulher apaixonada voltou para sua casa em silêncio. Lágrimas embriagada pelo luto e pela certeza que de que não era merecedora daquilo tudo.

Sentada no sofá reviu histórias, reviu sinais, perguntou onde errou e onde acertou. Chorou, mas chorou para deixar no passado, para seguir em frente plena.

Na quarta, haviam conversado sobre ela. A resposta foi: “Você está louca, eu nunca vou voltar para ela. Completamente desequilibrada emocionalmente. Não temos os mesmos valores”.

Só pela manhã teve coragem de fazer algo. Tomou o café da manhã, confirmou o churrasco com os amigos, arrumou a cama. Sem pensar muito, estava lá às 9h30 diante do carro dele na frente da casa dela.

Sem pestanejar pegou as armas mais brutas que possuía. A caneta e um Post-It amarelo.

Com mãos firmes escreveu aquele bilhete sabendo que cada uma daquelas palavras seriam as libertadoras de sua alma. “Não me procure mais” seguido da assinatura de seu nome e sobrenome causadoras de orgulho próprio. Colou aquele Post-It no para-brisa do carro, segurado pelo limpador, justamente para ter certeza que ele encontraria quando saísse de lá.

Ele, o homem que projetou seus sonhos, seus medos e suas angústias por meses. Aquele que parece ter tornado todas as mulheres da terra as infiéis que lhe traíram em seu antigo casamento. Todas elas merecem o troco.

Respirou fundo e com aquele Post-it, decidiu não chorar mais. Apenas esquecer e agradecer por ele não lhe procurar mais.

Luiza Pellicani

Jornalista que perdeu o filtro quando nasceu. Fala e faz o que dá na cabeça. É apaixonada por jornalismo, escrita, música, vida e por pessoas. Balada é comigo. Cinema é comigo. Netflix é comigo. Família é comigo. Nos amores, aproveite, as coisas podem mudar. E não esqueça, máxima do 8 ou 80 não funciona comigo.
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