QUE HORAS VOCÊ VOLTA?

Sabe aquela aprovação? Você não cabe nela. Foda-se.

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Leia ouvindo: Alicia Keys – If I Ain’t got you

Não sabia que horas iria voltar. Estava irritada demais para pensar em voltar. Eu só queria chorar mais um pouco, esfriar a cabeça e tentar não pensar em jogar tudo para o alto. Eu queria tirar de dentro de mim aquela sensação filha da puta.

A única coisa que eu conseguia pensar era um belíssimo “porra! De novo não!”. Repeti algumas vezes. Gritei. Chorei mais um pouco. Se fosse em outro momento, provavelmente eu vestiria o meu papel de vítima, seria mais fácil. Mas não seria dessa vez.

Eu tinha escolha, uma delas era continuar ou, como bem disse Clarissa, eu precisaria revirar a terra e fuçar os ossos para entender o que mais havia ali. Clarissa é a autora de um dos meus livros favoritos da vida, minha Bíblia, a quem recorro em momentos de sensação filha da puta e sessões de gritos.

Em Mulheres que correm com lobos, o livro de Clarissa que me refiro, ela permite instintos. Permite virarmos lobas. Eu tinha que fuçar para entender como eu tinha ido parar ali. O que chamo de “ali” é passar pela aprovação de alguém, ou não passar e ligar o foda-se para isso.

Depois de revirar a terra para fuçar os ossos, entendo que a última opção é sempre muito melhor – e mais saudável. Saúde mental é muito melhor do que uma aprovação de merda.

Aprovação é entrar em determinada nota de corte, conquistar um espaço, ser aceito, entre outras definições. Anota ai: quanto mais você tiver que se encaixar, atingir nota de corte, e o escambau, pior.

Eu continuava revirando a terra, mas meu focinho só sentia cheiro de foda-se. Eu só conseguia pensar “Puta que pariu, de novo você aqui?” – algo parecido com desenterrar situações que já tinha vivido e não queria viver de novo. Opa, consegue ver a escolha? Não querer viver aquelas sensações de novo também é uma escolha.

Respirei. Foda-se.

Seria mais fácil ser uma mulher dentro do padrão, aquela caixa maldita que contam suas falhas e estrias. Aquela caixa onde você precisa ser recatada, porque ser inteligente demais incomoda. Era mais fácil ser burra, mas ai deixaria de ser interessante. Ter opinião sempre foi uma questão.

Que merda! Respiro de novo. Choro mais um pouco.

Tem dias que é um pouco mais difícil rodar pela floresta. A gente perde as pistas, trilhas e armadilhas, a gente se afasta da matilha. Precisamos voltar, fuçar, sentir, ficar ali, respirar mais um pouco, correr risco. Não é por aprovação, é só para a gente se lembrar de quem a gente é. Lembrar as escolhas que fazemos. E mesmo quando a sensação filha da puta aparecer, ter o direito de se retirar para se encontrar.

Sabe aquela aprovação? Você não cabe nela. Foda-se.

Juliana Manzato
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