Querem acabar com a nossa solidão

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Não quero fazer estardalhaço, mas não há como evitar esse sermão: em nome da disputa por espaço, a cada dia um novo braço perde o seu apoio no balcão. Fruto do descaso dos patrões que baniram dos salões o lugar ideal para veladas confissões.
A cada novo bar lançado, a ordem é colocar de lado quem não tem vergonha de beber calado. Mesmo que seja famigerado, de coração alado, talvez um ser apaixonado.
Mas não sabem tais senhores originais que tal atitude descabida tira a bebida das almas sem medida que, de costas para a vida, têm direito aos mesmos pecados capitais.
Matar o balcão, senhor patrão, é um atentado aos desacompanhados. É como entregar de bandeja o nosso muro de lamentações a quem deseja alheias privações. Não se pode mais estar sozinho, em desalinho num bar sem ter de esnobar as gentilezas, olha só quanta destreza, que pululam sobre as mesas ao lado.
Malvado, esses patrões. Querem nos dar conforto, comandas e afins, mas esquecem que o porto seguro de qualquer botequim é o balcão desconfortável que nos tira do confim.
Enfim, não se pode nem mais achar graça, rir até mesmo da desgraça, sem ter de dar o ar da graça, assim, gratuitamente, para quem quer estiver naquela praça. Porque é sabido desde os tempos de Noel que Candeia era Nobel em beber sem ter cadeira.
É naquele banquinho que os verdadeiros boêmios, os exímios bebedores da noite, se sentem mais à vontade. É também ali, naquele pedacinho de mau caminho talhado em madeira, o único lugar do bar em que ninguém costuma dar bandeira.
Sem balcão, senhor patrão, não haverá outro lugar para suportar o peso de nossos cotovelos e angústias. Sem balcão, senhor patrão, não haverá conserva que dê conta do espaço que (des)conserva o nosso corpo.
Sem balcão, senhor patrão, os bares não serão mais a meca de nossas solidões. Mas, como me alertou um amigo engarrafado, um cara que nunca se fez de arrogado, há muito bar por aí que ainda não foi condenado. Talvez, se procurarmos com a minúcia de um arqueólogo, logo encontraremos um logradouro duradouro, com a alma de ouro e, claro, com os seus balcões servindo de legítimas ilhas para nos tirar desse naufrágio. Eis aqui o meu sufrágio.

Post de estréia do Senhor Boteco aqui no Dona Oncinha. À partir da semana que vem, começam as dicas de botecos de Campinas e região e teremos alguma coisa de São Paulo… enjoy 🙂

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4 Comments

  1. Bianca says

    Não consigo nem elaborar um comentário à altura desse texto. Foi de uma maestria sem adjetivos suficientes! Excelente.

  2. Dona Oncinha says

    Senhor buteco inaugurando a coluna em grande estilo 🙂

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