RASCUNHOS DELA | SEJA INTERESSANTE

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Leia ouvindo: Meg Mac – Roll Up Your Sleeves 

Provavelmente você deve achar que esse papo de ser interessante se resume a lista bizarra que uma boa parte da sociedade dá check. Mas posso te garantir, é muito mais simples do que isso.

O interesse por alguém geralmente tem como ponto de partida seus valores. O que realmente importa para você, precisa – de alguma forma – estar na outra pessoa. A sociedade chamou de interessante o que na verdade sempre foi projeção. Um homem interessante precisava se encaixar em atributos mínimos. Mulheres idem. E nessa história de colocar todo mundo na mesma caixa, a gente esqueceu que projetar no outro algo que não necessariamente temos em nós é uma bela cagada.

Aliás, é o começo do fim. Por que provavelmente essa projeção sempre deixa alguém sentindo que poderia ser mais. Mais interessante talvez.

Quando partimos do princípio que relacionamentos precisam ser igualitários, significa que essa história toda de projeção cai por terra e que o que realmente fica é a essência, a verdade, a cumplicidade e por que não dizer, verdadeira intimidade.

Psicanalistas, psicólogos e estudiosos já dizem que a maior reclamação no divã é a falta de intimidade. A superficialidade tomou conta de boa parte dos relacionamentos e nessa altura, discutir política ou levar um novo sabor de sorvete para casa, pode dar confusão.

Hoje mesmo falei sobre Bauman e seus tempos/amores líquidos. Será mesmo que nós tornamos tão superficiais? Será mesmo que naquela história toda da evolução, de se tornar um humano importante se perdeu? Tenho minhas dúvidas. Evoluímos assim – ou você acha que o primeiro alpinista que alcançou o cume do Monte Everest queria anonimato?

Mas não é a liquidez, é o interesse.

O interesse torna tudo mais profundo, exatamente onde não dá pé e consequentemente usamos a vulnerabilidade como boia. Conhecer alguém interessante vai além dos valores, aliás, provavelmente não tenha nada a ver com valores, mas sim, com curiosidade. Na quantidade de coisas novas e inesperadas, que aquela nova pessoa pode te apresentar.

Fotografia: Juliana Manzato

Como bem disse Luiza, em uma das nossas – tantas – conversas por telefone: – Juliana, cadê as pessoas trazendo uma opinião/história/ideia que nunca ouvi? Cadê outros pontos de vista? Cadê aquela sensação de querer conhecer mais? Descobrir mais? Sair mais? Querer mais?

Eu dou risada, mais concordo com a Luiza (a Pellicani, que escreve aqui no Cotidiano).

A sensação é de ficar brincando nas ondas ali no raso. É divertido, mas não é necessariamente desafiador. Gente interessante gosta de mergulhar mais fundo para descobrir, procurar, explorar, aprender, renovar, despertar, respirar.

Gente interessante é aquela sensação de alívio, sabe? Alívio em saber que vai ter um próximo café, papo, vinho, encontro. Por que gente interessante não foge. Também não transforma qualquer segundas intenções em tempestade, até por que, antes de mergulhar mais fundo, a pessoa interessante vai saber exatamente quais perguntas fazer para saber se enfim, mergulha ou fica no raso.

Quem nunca se divertiu na espuma, não é mesmo?

Juliana Manzato

Apaixonada por amor, cachorros, textos e coisas inspiradoras. Adora fotografia, mar, sol, doce de padaria, verão e olhar o céu azul. Esportista. Feminista. 80 porcentista. Irônica eu? Imagina.
Juliana Manzato

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