Ruídos do mundo

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Leia ouvindo: Jesse Ruben – This Is Why I Need You

Houve um tempo em que eu acreditava demais nas opiniões alheias e me via, quase sempre, descrente da minha própria certeza. Olhava em volta e enxergava o mundo pelo ponto de vista do outro. Era comum não me posicionar por medo do que pensariam, ou calar meu senso de justiça por achar perigoso comprar qualquer briga. A imaturidade me fazia completar o time do “talvez”, eu morria de medo de perder amigos pela força da minha opinião. Quando decidia me posicionar, fazia sempre a trancos e mil barrancos. Não havia equilíbrio: ou eu ganhava no grito, ou silenciava como um gatinho amedrontado. Eu era uma grande bagunça.

Um dia, caminhando pela rua, vi uma criança de seus 06 ou 07 anos maltratando um filhote de cachorro. O coração palpitou tão forte, quase saiu pulando pela minha boca. Eu sabia que faria algo, que precisava agir, mas se seguisse o meu modus operandi eu provavelmente arrumaria uma boa briga com a mãe daquela criança no futuro. Foi quando, em meio ao desespero de ver a cena e ao receio de entrar numa batalha, eu optei por tomar uma decisão equilibrada.

Me aproximei devagar, comecei perguntando qual era o nome dele. O garoto era arisco, não queria papo. Ajoelhei no chão e fiquei cara a cara com ele, disse que aquele cachorrinho poderia ser um amigão dele e foi aí que ele me surpreendeu. Disse que batia no cachorrinho porque ele estava o seguindo, e sua mãe odiava cães. Ele não poderia levá-lo pra casa, se chegasse com ele lá, seria pior. E então o choro lhe desceu pelo rosto.

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[ Imagem: reprodução / Pinterest: cotidiano dela ]

Não é preciso dizer que eu também desandei a chorar. Abracei aquela criança e agradeci a Deus pelo momento de calmaria que vivia, por ter decidido agir sem excessos, por ter ouvido o que ele tinha a dizer. Eu adotei o cachorro e o Luan – o garoto – passa na minha calçada todos os dias para brincar com ele. Quando estou por lá, abro o portão e batemos papo. Ganhei um amigão e de quebra, uma lição importante: a opinião alheia tende mesmo a ser ácida, dolorosa. Mas ela não deve importar tanto assim. Eu conheço a pessoa que mora dentro de mim e somente eu posso dizer algo sobre ela com tanta propriedade. Mas estar certa jamais me daria o direito de ser cruel.

Quando a gente conhece a nossa própria verdade, os ruídos do mundo começam a silenciar e a vida passa a fazer mais sentido. Hoje eu acordo, me olho no espelho e me lembro todos os dias de ouvir o que aquela pessoa que me admira do outro lado tem a dizer. Às vezes, motivada pelo tempero do dia, eu acredito menos nela do que deveria. Em via de regra, sei que ela se tornou uma grande amiga.

Hoje, quando vejo uma injustiça, ou quando sinto desejo de dizer “não” a algum convite, eu simplesmente respiro e penso: como eu gostaria de ouvir se estivesse do outro lado? Como posso transformar esse posicionamento pessoal em algo nada truculento, mas firme e verdadeiro? Como fazer a minha decisão parecer somente o meu ponto de vista e não a verdade absoluta entre os mundos?

Tem dias que sou melhor nessa prática e em outros tantos, me complico. Mas em geral, o mais importante eu consegui aprender com tudo isso: a vida nos pede coragem para ser o que somos, sem que isso impeça o outro de ser exatamente do jeito que ele é.

Mayra Peretto

Uma mulher de cabeça e coração sempre cheios! Capricorniana da gema, produtora de eventos por profissão e escritora pra vida. Apaixonada pelo 'hoje', escreve sobre o que pulsa nas veias e escorre pelos olhos. Seus dias são feitos de poesias, boas músicas e muita luta!"
Mayra Peretto

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