Sem palavras

Leia ouvindo: Angus and Julia Stone – The Wedding Song

Tudo era novo e diferente. Tudo era muito familiar também. Os três beijos bem marcados no rosto, começando sempre pelo lado esquerdo, o aperto de mão firme. A música alta e as conversas também. A dança ensaiada. Mãos dadas e passos marcados. Na igreja, homens de um lado, mulheres de outro. No meio, o casal unido pela fé e pelas mãos amarradas com um manto. Na festa, a mesa farta e o copo cheio. Os sorrisos e os abraços. Tudo era novo e diferente. Tudo era, ao mesmo tempo, tão conhecido.

Quando pegamos a estrada, não tínhamos noção alguma do que nos aguardava em Jovanka Bosanska Dubica, Bósnia. Sim, Bósnia. Nem nos sonhos mais loucos, pisara lá um dia. Na fronteira com a Croácia, fomos recebidos pelos noivos. No casamento, fomos recebidos com rakia, uma espécie de cachaça. No casamento, fomos recebidos com carinho, uma espécie de amor.

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Tudo era muito simples. Tudo era muito intenso. A comida era bem temperada. O sabor das pessoas também. Não havia quase glamour. Havia alegria. Havia festa, havia festejo. Haviam pessoas felizes simplesmente por conta da felicidade das outras. Bastava. Havia gente, de corpo e, principalmente, de alma. Estávamos num pedaço do mundo que o GPS não podia reconhecer. Estávamos num lugar do mundo em que a gente não podia reconhecer nenhuma palavra. E elas não fizeram falta. O que diziam eram os olhares, os gestos.

E foram esses gestos e olhares que, sem qualquer tradução, me emocionaram. Me fizeram sentir a razão de estar ali. Enquanto rodopiavam em valsa pelo salão, o olhar dela para ele foi, para mim, a tradução mais exata do amor. O beijo delicado dele no rosto dela. Como se dissesse, te cuido, te guardo, te amo. As mãos deles juntas como se dissessem, fica comigo.

Cada toque, cada gesto. Tudo era cheio, carregado, nada metade, nada incompleto. Naquele momento, eram só eles. Mais ninguém no mundo. E, sendo egoísta, o que é amar senão estar com o outro por inteiro, por tudo, por nós e mais ninguém? O amor precisa um do outro. Só. E ali eles estavam. Não importa o lugar. Não importa o idioma. Não é preciso conhecer as palavras para saber disso. O amor não precisa ser entendido. Ele próprio é o entendimento.

Assinatura Lívia

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