Senhora do destino

Leia Ouvindo: Maria Rita – Encontros e Despedidas

Não acreditei quando comprei as passagens. Meu destino? Alemanha, com uma parada em Madri. Durante meses me imaginei no check-in, aeroportos, aviões… Tudo o que eu precisaria passar para, finalmente, aproveitar minhas férias ao lado da minha irmã. E tudo isso, claro, era motivo para minha ansiedade chegar a níveis nunca antes alcançados.

Talvez o que mais me assustasse era o fato de eu ter tomado a decisão de ir. Eu procurei, eu encontrei. E eu ia fazer. Aliás, ia fazer tudo sozinha. Esse era meu real medo. Afinal, definitivamente não ia ter ninguém comigo para cruzar o Atlântico. E se desse alguma coisa errada? O território não seria “seguro”, a língua não era a mesma – apesar do inglês quebrar o galho -, e nem estaria há 1 hora da casa dos meus pais. Por que tinha aprontado essa comigo? Não sei, só sei que precisava ir. Enfrentar.

Estava prestes a entrar para os portões de embarque. Depois daquela catraca, era somente eu, assim como agora escrevendo esse texto. Caiu a ficha de que é assim. Você por você. Me despedi dos meus pais com lágrima nos olhos, mas não eram de tristeza. Eram de orgulho. Eu provoquei essa situação que me assustava, mas estava ali pronta para me deixar levar pelo destino. Pensei “o que tiver que ser, será”. Rezei e a jornada de 14 horas havia começado.

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[ Imagem: reprodução ] 

Aquele gigante monstro que projetei em meus pensamentos não passava de um pequeno passo. Tudo foi muito bem, a não ser as turbulências que insistiam em chacoalhar o avião. Passou, passou rápido. Quando eu vi, tinha feito tudo que eu precisava fazer e nem tinha me dado conta. Sem confusões, sem perdas, sem medo. Onde ele tinha estado? Acho que ficou para trás quando despachei a bagagem.

Eu tinha chegado e estava ao lado de quem eu mais queria estar, vendo lugares lindos, conhecendo coisas novas. E lá vem o destino de novo. Em uma noite regada à cerveja polonesa, ele entrou em discussão. Será que não mandamos no que nos acontece? Será que já está tudo definido desde quando nascemos? Ou somos nós quem decidimos os rumos das nossas próprias vidas? Eu acho que um pouco dos dois, na verdade.

Fui eu quem fui atrás dessa viagem, desse respiro. Eu decidi que iria e eu fui. Mas talvez essa necessidade que senti de sair para o mundo, de encarar o meu maior medo, de matar uma saudade incontrolável, de sentir que tinha que estar ao lado da minha irmã, não foi em vão. Todos esses sentimentos me motivaram a correr atrás. E eu atribuo isso ao destino, bem como a indicação de um amigo sobre o bom preço das passagens! Era para eu ter essa experiência que, no fim das contas, se mostrou muito mais do que uma viagem.

Poderia muito bem não ir, ignorar tudo o que sentia e me render ao comodismo de ficar no meu mundinho. Seria uma escolha, não? Mas meu destino me esperava e, depois de passar aquela catraca, eu sabia que não voltaria a mesma. Agora sei o que é ser a senhora do próprio destino, ciente do poder das minhas escolhas e de que a vida se ajeita para cumprir o seu curso.

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