SENTIR RAIVA DEVERIA SER NORMAL

Não aprendemos acolher a raiva, por que é ela que nos acolhe. Longe dessa acolhida acontecer através de um gentil abraço, a raiva é um chacoalhão daqueles.

 

Leia ouvindo:  Arcade Fire, Owen Pallet – Dimensions

Desde que comecei a ler O caminho do artista, livro de Julia Cameron, enxerguei sentimentos e sensações com mais facilidade. Semanas atrás, com certo (muito!) atraso, assisti o aclamado The Last Dance, série documental da dobradinha ESPN e Netflix, que conta a história vitoriosa do Chicago Bulls na NBA.

Mesmo em universos tão paralelos, a sincronicidade fez seu chamado. Havia terminado o capítulo que Julia abordava a raiva como ferramenta para criatividade, além de ser uma dos principais agentes de mudança de vida. Ao começar a série percebi que a raiva se fazia presente. Michael Jordan, (que além de ser um dos maiores atletas de todos os tempos, era também estrela do Bulls), usava a raiva como combustível de uma maneira fantástica. Cada provocação, cada ponto do adversário, cada jogo perdido, tudo (ou quase tudo) era revertido a seu favor.

Dia após dia, nas páginas matinais propostas por Julia, eu explodia. Trazia para as linhas situações de raiva acumulada anos à fio. Tudo veio à tona, das aulas de educação física na escola à situações familiares. A raiva me trouxe como presente lembranças silenciadas por anos.

Conforme escrevia as páginas matinais eu senti tudo de novo. A meditação, por dias seguidos, foi sobre raiva (re)sentida. O quanto foi tóxica, e também combustível, para cada tomada de decisão da minha vida.

Raiva nunca foi pauta lá em casa, pelo contrário, sempre foi colocada na caixinha de sentimentos “feios”, que jamais deveriam ser sentidos. Pouquíssimas vezes pude acolher a raiva que sentia – já que não era permitido sentir. Adulta, me lembro de levá-la poucas vezes para o divã.

A meditação me apresentou a raiva de novas maneiras, da observação ao mergulho profundo. Atualmente é pauta importante, combustível, aquilo que deixou de me paralisar e que me move para ação.

fotografia: Cotidiano Dela

Nossa sociedade é aquela que sente raiva de sentir raiva. Um sentimento velado, que deixa de usar com sabedoria essa bússola. Para mim, foi libertador encontrar no flow, o melhor caminho para reviver a raiva. Meus momentos de fúria me despertaram da estagnação e apatia.

Não aprendemos acolher a raiva, por que é ela que nos acolhe. Longe dessa acolhida acontecer através de um gentil abraço, geralmente vem de um chacoalhão. Como Julia bem escrever, a raiva “(…) é muito, muito leal. Sempre avisa quando somos traídos. Sempre nos avisa quando nós mesmos nos traímos. Sempre avisa a hora de agir em nome dos nossos interesses. A raiva não é a ação em si. É o convite à ação”.

Desde então, quando a raiva aparece por aqui, sei que é a energia da ação, o impulso para o próximo passo, a porta de entrada para o novo, é o universo me provocando para seguir o instinto e usar essa ferramenta com sabedoria.

Todos os dias a meditação me mostra novas fatias desse sentimento, umas delas é que a raiva é o impulso para coragem.

Juliana Manzato
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Juliana Manzato

Apaixonada por amor, cachorros, textos e coisas inspiradoras. Adora fotografia, mar, sol, doce de padaria, verão e olhar o céu azul. Esportista. Feminista. 80 porcentista. Irônica eu? Imagina.

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