Tratado de paz!

Leia ouvindo: The XX – VCR

E então ele chegou, largou as chaves sobre o aparador, caminhou calmamente até mim e, sem dizer uma palavra, sentou ao meu lado aconchegando-me em seus braços. Inconscientemente, toda a tormenta vivida nas últimas 24 horas brotou por cada poro de meu corpo e em paz, desaguei. Chorei copiosa e doloridamente, deixei meu corpo drenar cada ml de tristeza, incompreensão, injustiça e medo. Tudo! Gota por gota, fui esvaziando aconchegada em seu abraço quente e acolhedor.

Ele, ao invés de desesperar-se mediante ao meu justificado surto, permaneceu com olhos tranquilos e ternos. Não me apertou forte, tampouco afrouxou os braços quando o tempo foi escorrendo. Não era um nó! Era laço! Ele dava a mim, naquele silêncio confortável, o nobre direito de deixar doer, de sofrer em paz, de chorar em segurança.

O perfume inebriante de sua camisa invadindo minh’alma convidou-me a voltar pra casa, a voltar pra nossa imperfeita felicidade de costume. Fui recompondo-me tão aos poucos quanto poderia, lembrando-me dos bons motivos pelos quais acordava todos os dias e caminhava até o trabalho. Me recordei dos planos de mudarmos para uma casa maior, do sonho de viajarmos pelo Sul da Itália. Me lembrei dos tantos caminhos que percorremos até ali, do medo provocado pela distância, da decisão de unirmos as nossas almas e compartilharmos até mesmo os nossos sufocos.

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[ Imagem: reprodução ] 

Permiti, a mim e ao meu coração, que fossemos banhados pelo bálsamo sagrado que combinava um futuro doce com as cenas iluminadas de um passado colorido. Senti o gosto sereno do aconchego e ele, já prevendo que sua tranquilidade finalmente atingira meu ser, moveu-se para fora do sofá em direção à nossa minúscula cozinha. De lá voltou com um arranjo reluzente em suas mãos, munido de três botões de rosas brancas, alvas e exatas! Entregou-me, deu-me um casto beijo em cada lágrima que terminava de cair e sorriu. Sorriu em mim, sorriu pra tudo o que eu era e talvez só ele fosse capaz de enxergar.

Ali, abraçada às três rosas brancas, senti cada pequeno gole de amor e esperança preencher novamente o meu interior tão vazio. Naquele momento, não havia mais resquício de um dia difícil. Não havia medo, não existia o carro batido, tampouco a promoção que havia sido perdida no trabalho. Não existiam injustiças, o mundo estava livre da violência, do rancor, eu estava livre da tristeza. De uma forma misteriosa, era naquele abraço que eu encontrava a minha redenção, e mesmo sem proferir uma palavra sequer, ele era o único no mundo capaz de consolar todas as minhas dores. Não era o que se podia dizer, mas sim o ato! Amor puro que se constrói fora das entrelinhas.

 Lancei-me em seus braços com a urgência de alguém que acaba de voltar à superfície após um longo mergulho. Em questão de segundos, éramos um só. Eu, ele e a nossa tão imperfeita paz. No fim de cada grande tempestade, renovávamos a certeza de que tínhamos construído sobre rígidos alicerces, os pilares de nossa história. E naquela noite fria, aquele homem que conheci ainda menino, segurou novamente o meu coração entre os seus dedos e me fez acreditar em dias melhores. Naquela noite, à meia luz de nossa sala, vestidos apenas de nós mesmos, pintamos em aquarela o retrato personificado da expressão ‘fazer amor’!

Mayra_2015

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