TUDO AQUILO QUE NÃO FALEI

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Leia ouvindo: Ford. – Lazy Sad

Vira e mexe eu penso em você e em tudo aquilo que não falei. É mais forte que eu. Os diálogos ainda são muito presentes. As tentativas, feridas e fraturas expostas, também. É sempre uma merda pensar no fim. É sempre difícil aceitar que tinha que ser assim. Talvez um dia, mais experientes, com novas histórias finalmente exista um encaixe para ajeitar os nossos cacos.

Quem se fez importante permanece. Afeta o presente e o futuro. Afeta escolhas. Afeta todo e qualquer tipo de relação que vem depois. Quem se fez importante se torna referência do que queremos, ou não, naquele próximo alguém. Quem se fez importante é lembrança, até mesmo quando a gente escolhe que não quer.

Eu queria ter te falado tanta coisa. Queria ter trazido falas e atitudes que eu demorei semanas para digerir. Falas e atitudes completamente manipuladas e abusivas. Era uma merda saber que, de novo, eu tinha estragado tudo. (E eu não tinha). A sua capacidade de manipular e trazer a culpa para o meu lado era absurda. E nessa atitude de manipulação e culpa dava para perceber a sua insegurança atingindo a minha em cheio.

Elogios? Sempre que possível, para reverter o jogo da culpa. Admiração? Quando era conveniente. Na maior parte das vezes sempre existia uma mulher “mais”. Mais bonita. Mais inteligente. Mais atraente. Mais tranquilo para demostrar interação em rede social – likes, emojis, comentários e afins. Comparações indiretas. Passados jogados em meio a conversas, “ah, mas nós já saímos”.

Eu não podia errar, por que sempre existiam as “mais”. Eu não podia demonstrar, por que na próxima semana ele estaria ocupado demais. Eu não podia ficar confortável sendo eu mesma, por que todos os meus defeitos e jeitos e falas eram motivo para “a gente não dar certo”.

E não demos.

E por muito tempo eu me culpei por isso. “Tá vendo? Se não tivesse feito aquilo”, “Por que você fez aquela pergunta?” , “Nossa, você foi uma boçal”, eu vi a minha autoestima oscilar de uma maneira absurda e não entender bem o porque. Mas quando eu entendi…

Fotografia: Juliana Manzato

Quando eu entendi que o eu vivia tinha nome e se chamava abuso, eu chorei. Eu chorei muito. Chorei muito mesmo por que de novo estava aumentando o meu grau de exigências para agradar alguém que não queria ser agradado. Não por mim.

O problema não estava em mais ninguém, a não ser nele. Naquele cara que viu as minhas inúmeras fases, acompanhou de perto tantas dificuldades, dividiu um luto comigo, sabia onde achar colo e algumas risadas, sabia também que nossa relação não iria dar em nada.

Me pergunto diversas vezes se afetei tanto a vida dele como ele afetou a minha. Me pergunto se em todas as vezes que ele disse ser sincero, ele realmente foi. Me pergunto se honestidade é algo que precisamos pedir para alguém. Pactos claros para relacionamentos – de todos os tipos – serem longos não funcionou muito bem com a gente, porque provavelmente ele não me considere boa o suficiente para ser uma amiga.

Talvez ele nunca tenha me considerado boa o suficiente para estar com ele. Não era tatuada o suficiente. Nem tinha um trabalho tão inspirador, como era mesmo aquela história? “Ah, ela é designer, é muito mais interessante”. Eu também não era morena. Nem 100% urbana. Uma foto de biquini no meu feed era exposição demais, mas no feed das outras se transformava em like. Eu não era nada. Eu estava ali para passar o tempo, melhorar um dia ruim de trabalho, jogar papo fora, ser a conchinha naquela noite e etc, etc, etc.

O machismo e o abuso sempre insistem em aparecer através da desconstrução dita – e não aplicada, claro.

Provavelmente eu nunca vou ser alguém para estar ao lado dele. Nunca vou ser tão inteligente, interessante, bonita e parceira como qualquer outra mulher. Até por que, onde o machismo faz a cama, o abuso é travesseiro e sempre vai existir um cobertor mais quente – uma mulher melhor do que você. É sempre assim, melhor, mais interessante, mas tranquila, equilibrada, bem sucedida, magra, e acrescente aqui outros adjetivos.

O teto do machismo é projetado. Aquele que culpa, não só manipula, como carrega em si uma insegurança absurda. Um homem inseguro sempre vai dar um jeito de desestabilizar uma mulher. Testar seus limites através de comentários bobos para ver sua reação. O homem inseguro vai te trazer para um mundo que é só dele, por que ali é muito mais fácil de controlar.

Por fim e não menos importante, quando esbarrar em um relacionamento assim, não espere muito para ir embora. Não transforme em importância, alguém que só te traz culpa e faz da sua vida um verdadeiro inferno.

Juliana Manzato

Apaixonada por amor, cachorros, textos e coisas inspiradoras. Adora fotografia, mar, sol, doce de padaria, verão e olhar o céu azul. Esportista. Feminista. 80 porcentista. Irônica eu? Imagina.
Juliana Manzato

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