Um motivo para sorrir | Filhos de quatro patas

Leia ouvindo: Slash & Myles Kennedy – Sweet Child O’ Mine

A maior e mais linda história de amor que vivi não foi com um homem.

A Saory apareceu na casa da minha avó, e lembro com tanta clareza que pareço reviver aquele dia cada vez que penso nele. Era de manhã, ela passeava pela grama – provavelmente havia entrado pelo buraco do velho portão de ferro. Ainda filhote, vira-lata das mais safadas, limpinha e com os dentinhos de baixo para fora. Eu devia ter uns 12 anos e, antes dela, só tinha tido um cachorrinho – que não durou nem um ano dentro de um apartamento.

Adotamos aquele prototipozinho de Bambi sem saber bem o que estávamos fazendo. Levamos para dentro de casa, mas não demorou muito para ela passar a morar no coração. Era espevitada, corria entre os móveis e subia nos sofás fazendo a maior bagunça. Até hoje tenho fascinação por cachorro doido, e é tudo uma deliciosa culpa dela.

Sou louca e perdidamente apaixonada por cachorros, daquele tipo que perde a compostura na presença de um. Talvez o espírito do meu falecido avô veterinário more um pouco dentro de mim, e acredito que eu só tenha a agradecer ao vô Tião. Não conheci ainda amor mais puro e companhia mais fiel, e devo a estes serezinhos os meus mais sinceros sorrisos.

[ Imagem: reprodução ] 

Saory nunca me deixou sentir solidão, acompanhava cada um dos meus passos. Posso jurar que sabia quando eu sentia dor, angústia, e detestava me ver chorar. Se inquietava, colava o queixinho na minha perna sentada. Tipo uma filha, puxou diversas das minhas características. Era dorminhoca e preguiçosa – culpa de uma doença de tireóide que, pasmem, ela tinha igual a mim –, temperamental e tinhosa – ficou um dia inteiro sem chegar perto quando voltei de 5 meses de um intercâmbio. Amava pipoca e M&M’s e teve que lutar contra os quilinhos a mais.

Foram 16 anos até que São Francisco de Assis, o protetor dos bichinhos, resolveu leva-la para perto dele. Nada, nenhum sofrimento ou pranto que corre até hoje, tira de mim a lembrança dos dias mais felizes que tive na companhia dela.

Ser pai e mãe de cachorro também é uma arte, e quem não compartilha desse sentimento talvez não entenda a alegria que esse “filho” pode trazer. São dotados de uma energia diferente, leve, pura, e capazes de tirar dos corações mais duros as sensações mais moles. São mestres na arte da gratidão e de fazer alguém se sentir bem-vindo, e parecem aceitar, mais do que qualquer ser humano, que a vida é uma eterna festa.

Um ano depois da Saory partir, deixamos para Maria Sharapova a porta se abrir (é, a gente lá de casa não tem muita maturidade para nome de cachorros). Chorando, vi outra vira-lata doida invadir minha vida. Não demorou para as lágrimas secarem: hoje elas viraram deliciosas gargalhadas. O motivo do meu sorriso.

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Bianca Carvalho
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Bianca Carvalho

Uma carioca branquela, bagunceira e desbocada. Uma mulher questionadora, inquieta e expansiva. Uma amante do mundo, dos cachorros e de pessoas apaixonadas pela vida.

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