VAI-TE | ~ deixa doer //

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Leia ouvindo: Panama – It’s not over

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porque a dor de hoje é a dor que você ainda não conhece, a dor que sabe dar a volta na sua malandragem e te pega pelas costas.
essa dor ainda não tinha doído, e ela chega disfarçada de tudo quanto é barulho: dúvida, medo, raiva, frustração, decepção.
antes de doer, ela dá pinta de outras coisas, finge que não é dor. é artista.
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te enlaça em um véu claro, mas mesmo assim te rouba a visão. e aquilo que está na sua frente o tempo todo, você não vê.
te molha a boca quando está prestes a morrer de sede, e você acredita que o carrasco é salvador.
te compra com portos, mas o navio nunca volta àquele cais.
te seduz, e você que se achava mestre neste jogo, se dá conta que sequer escutou o aviso de check quando um simples peão te ameaçava olhando nos olhos.
Fotografia: Juliana Manzato
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essa dor é diferente de outras dores, e é por isso que você se interessa por ela.
porque não é possível doer assim, logo em você que já caiu tanto, mas se tornou especialista em levantar.
porque não faz sentido ainda ser capaz de tirar o seu chão, se já faz tempo que você aprendeu a voar.
porque não é de hoje que você conhece os caminhos da vida, já andou. eu sei, você já andou. e onde é que estava essa dor que você não topou?
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a dor de hoje é essa dor que você deixa doer para criar intimidade. posterga a partida porque sabe: ela te conhece melhor do que você a ela.
essa dor que todos dizem com muita facilidade: “deixa ir”, não vai a lugar algum sem você.
essa dor é cã, ela ainda mora, ela ainda cresce, ela está viva como nunca.
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você continua sendo forte, mas só por hoje você vai cair.
você ainda é capitão desse barco, mas essa noite vem tempestade.
você não vai desistir, mas por hora, você fechou as portas.
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dentre tantas outras dores, você não podia esperar logo essa, não dessa forma, não desse lugar.
mas é por isso que é agora, não tem mais o que se possa fazer.
deixa doer.

Carol Faria

Carol é escritora e comunicadora desde sempre. De alma livre e coração acelerado, nasceu assim, mas demorou alguns anos para entender que essa essência deveria estar em tudo o que faz.
Geminiana a dar com pau, queria ter feito jornalismo na primeira formação, já morou em vários lugares e acredita que ainda vai morar em muitos outros. tem 34 anos, é casada com o melhor amigo, gosta de tomar café na padaria portuguesa e de sorvete de pistache aos domingos. é viciada em salas de aula e de embarque, divide boa parte de seu tempo livre entre planejar viagens, viajar e ler vários livros ao mesmo tempo. fã de Chico, Bethânia, Los Hermanos e Adele. tem uma cachorra imaginária desde os 3 anos de idade, mas acredita que em breve ela se tornará realidade.
Carol Faria

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