VAI-TE | SOBRE TUDO O QUE A GENTE NÃO QUER MAIS

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[dedicado aos de corpo e alma mais velhos, e aviso aos navegantes]
Não queremos mais ficar acordados até de madrugada, beber além da conta, comer mal, nem frequentar lugares cheios.
Não queremos ficar em fila de banheiro, pagar o dobro do preço na cerveja, ouvir música que bate nos ouvidos, nem pessoas querendo ganhar a noite a qualquer custo – com papo furado e conversa chata.
Não queremos o lanche de rua na madrugada, o taxi da volta regado de arrependimento, o chocolate no criado mudo (que você continua comendo se acordar no meio da noite), nem o travesseiro manchado da maquiagem que não tiramos antes de deitar.
Não queremos o moço bonzinho, que trata bem, mas acabou de terminar o namoro longo e ainda gosta da ex. Nem o malandro, bom de papo, sedutor, que não leva nada a sério.
Não queremos colchão inflável em qualquer canto da casa de praia, porque qualquer canto não serve. Nem lençol sem cheirinho de amaciante, ou toalha áspera.
Não toleramos emprego que não faça sentido, chefe que não inspire, trabalho abusivo, e salário injusto.
Não queremos números, quantidade, volume, filtro. Amigo que não é amigo, família que não é família, gente que não é gente da gente.
Não torramos no sol, não esquecemos a blusa, não ignoramos os conselhos das mães, não compramos tanto, e não deixamos a louça na pia a semana toda.
Não esquecemos de rezar e agradecer, não abrimos mão da nossa voz, não aceitamos meios amores, meias verdades, meias emoções.
Não serve o meio do caminho, um pouco, quando der, vamos ver, amanhã eu te ligo.
Não nos interessamos pelo “o que tem para hoje”, porque sabemos do valor que o hoje tem, é no hoje que a gente vive a maior parte do tempo.
Não temos tanta pressa, mas não passaremos nossas vidas esperando, acreditando, se iludindo, implorando. Entendemos a diferença entre ser otimista e realista.
Não passaremos por cima dos nossos valores, não desistiremos de viver essencialmente da nossa arte, e nos daremos o luxo de não retornar, não responder, e não atender.
Preferimos nossa própria companhia a um mero preenchedor de espaço na sexta-feira à noite. Aliás, um bom vinho, uma comida japonesa, e um saco de pipocas que acompanha o filme novo do Gael Garcia sempre serão boas escolhas se ainda não tiver chegado aquele alguém que também já elencou uma bela lista do que não quer mais.
Fotografia: Juliana Manzato
Continuamos sonhando, querendo, procurando, descobrindo, se apaixonando, se rendendo, encantando, dividindo, cedendo, e acima de tudo, errando e aprendendo.
Tudo bem, porque a gente já não se culpa mais por cometermos alguns erros de vez em quando, eles fazem parte do que a gente se torna.
Há quem diga que nos tornamos velhos, pode ser. Gostamos dessa nova versão madura e vivida, moldada e transformada, porque a antiga…
A gente não quer mais!

Carol Faria

Carol é escritora e comunicadora desde sempre. De alma livre e coração acelerado, nasceu assim, mas demorou alguns anos para entender que essa essência deveria estar em tudo o que faz.
Geminiana a dar com pau, queria ter feito jornalismo na primeira formação, já morou em vários lugares e acredita que ainda vai morar em muitos outros. tem 34 anos, é casada com o melhor amigo, gosta de tomar café na padaria portuguesa e de sorvete de pistache aos domingos. é viciada em salas de aula e de embarque, divide boa parte de seu tempo livre entre planejar viagens, viajar e ler vários livros ao mesmo tempo. fã de Chico, Bethânia, Los Hermanos e Adele. tem uma cachorra imaginária desde os 3 anos de idade, mas acredita que em breve ela se tornará realidade.
Carol Faria

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